Quando a festa acaba mas não estamos prontos para voltar
Uma reflexão sobre o tempo de transição entre a festa e a rotina
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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O fim do Carnaval tem algo de abrupto. Mesmo sabendo que ele acaba, a sensação é sempre de interrupção. Como se alguém desligasse a música no meio da dança e, de repente, fosse preciso lembrar de senhas, horários, metas, compromissos. O mundo retorna rápido demais.
É aí que aparece o que eu tenho chamado de jet lag emocional: esse descompasso entre o tempo do calendário e o tempo interno. A festa acaba oficialmente, mas o corpo e a experiência ainda estão naquele fuso. A gente acorda na Quarta-feira de Cinzas — que já é, por si, um dia de transição — mas emocionalmente ainda está atravessando o que viveu. Não é mais Carnaval. Ainda não é rotina. É um entre.
Eu levei isso a sério. Decidi que não pegaria o celular. Nem a hora eu queria ver. Redes sociais? Longe. E se existem fotos minhas por aí, sorrindo ou com glitter no rosto, certamente não fui eu quem tirou. Pela primeira vez em muito tempo, eu quis estar inteira onde estava.
Mas, mesmo sendo feriado nacional, algumas mensagens chegaram. E aqui é importante dizer: existem urgências reais. Sou psicóloga. A dor de alguém não entra em recesso porque a cidade está em festa. Quando algo é urgente para um paciente, também se torna urgente para mim. Isso não se negocia.
O que me fez pensar foi outra coisa: pedidos que poderiam esperar. Demandas que não eram emergenciais, mas foram enviadas assim mesmo. E talvez a questão não seja mandar ou não mandar mensagem — seja saber distinguir o que é urgente do que é apenas importante. O que precisa atravessar o tempo do outro agora e o que pode, respeitosamente, aguardar até quinta-feira.
Na quarta-feira, isso se intensificou. Ligações, cobranças, expectativas de resposta. Como se o mundo tivesse decidido que o botão de “retomar” precisava ser apertado com força máxima. Foi nesse momento que senti o jet lag com mais clareza: eu tinha voltado, mas ainda estava chegando.
E então fiz algo que não é simples para mim: um pedido público. Escrevi que só retornaria na quinta-feira, que a Quarta-feira de Cinzas também seria guardada. Não como fuga, mas como transição. Não como ausência, mas como respeito ao próprio tempo.
O psicanalista Christian Dunker fala que parte do mal-estar contemporâneo está na dificuldade de reconhecer limites simbólicos — inclusive os de tempo. Quando tudo parece igualmente urgente, perde-se a capacidade de diferenciar necessidade de ansiedade. E, nessa confusão, o outro deixa de ser sujeito com ritmo próprio e vira extensão da nossa pressa.
Talvez o jet lag emocional seja isso: o esforço de proteger o próprio intervalo sem deixar de reconhecer a urgência real do outro. Não é sobre se ausentar do mundo. É sobre aprender que transições também precisam ser vividas.
Porque voltar é inevitável. Mas voltar inteiro, às vezes, leva um pouco mais de tempo.
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