Saúde mental não é meme: quando a dor do outro vira entretenimento
Quando a dor vira piada, a empatia adoece
Sátina Pimenta
Sátina Pimenta, psicóloga clínica, advogada e professora universitária
Estou aqui, nesta quarta-feira qualquer, preparando uma palestra para a Secretaria de Recursos Hídricos do governo do Estado. O tema é simples, mas não é leve: saúde mental não é um assunto banal. Todo cuidado conta. E é curioso perceber como, cada vez que a gente estuda esse tema, surgem mais camadas, mais perguntas, mais incômodos.
Talvez porque falar de saúde mental seja, no fundo, falar da forma como nos relacionamos com o sofrimento, o nosso e, principalmente, o do outro.
Na tentativa de dialogar com o cotidiano, resolvi trazer para a palestra alguns memes e “brincadeiras” que circulam na internet. Aqueles que, sob a máscara do humor, ridicularizam experiências de sofrimento psíquico.
Um dos alvos mais frequentes são os Caps, Centros de Atenção Psicossocial. Quantas vezes a gente não vê frases como “isso aqui tá parecendo Caps”, “fulano devia ir pro Caps”, sempre como sinônimo de descontrole, loucura, inadequação?
O que parece piada, na verdade, reproduz um estigma gigantesco. Reafirma a ideia de que saúde mental é coisa de “gente doida”, de que buscar cuidado psicológico é sinal de fraqueza, desvio ou incapacidade.
E não é só nos memes. É na forma como comentamos crises de ansiedade, episódios depressivos, transtornos. É quando chamamos alguém de “doido”, “problemático”, “instável”. É quando transformamos dor em adjetivo.
Antigamente, a televisão nos ensinava a rir das videocassetadas. Hoje, a lógica mudou de cenário, mas não de estrutura: rimos quando o outro sofre emocionalmente. Rimos da depressão, da ansiedade, do transtorno, do colapso.
Recentemente, vi um vídeo viral de um homem com Tremor Essencial, um distúrbio neurológico que faz o corpo tremer de forma involuntária. Ele tentava comer em restaurantes. Metade das pessoas riram ou fizeram chacota. A outra metade era de pessoas que se aproximavam, ajudavam, criavam estratégias para que ele conseguisse fazer algo básico: se alimentar.
Dois mundos no mesmo vídeo. O mundo que consome a dor como espetáculo e o mundo que reconhece a dor como algo que convoca cuidado.
Talvez a pergunta mais importante não seja “o que está acontecendo com essa pessoa?”, mas “o que eu faço quando me deparo com o sofrimento do outro?”. Eu rio? Eu ignoro? Eu compartilho como piada? Ou eu intervenho, acolho, explico, cuido? Porque não é brincadeira.
Brincar com a dor do outro é uma forma sofisticada de violência. É transformar sofrimento em entretenimento. É anestesiar a empatia.
Desestigmatizar a saúde mental não é só criar campanhas bonitas ou discursos institucionais. É um exercício cotidiano, ético e relacional.
É na mesa do almoço, no grupo do WhatsApp, na sala de aula, no trabalho, na internet. É quando a gente escolhe não rir. É quando a gente escolhe nomear o sofrimento como sofrimento. Saúde mental não é moda, não é meme, não é exagero. É gente tentando existir sem adoecer mais. E todo cuidado conta.
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