Questione o que você fala
Reflexões sobre acessibilidade, capacitismo e o que a gente reproduz sem perceber
Sátina Pimenta
Sátina Pimenta, psicóloga clínica, advogada e professora universitária
Eu estava aqui rolando o LinkedIn (sim, gente, eu também vejo outras redes além de Instagram e TikTok – inclusive eu nem gosto do TikTok), quando me deparei com uma publicação da Patrícia Lorete. A Patrícia é especialista e palestrante em acessibilidade e inclusão, e já tem um tempinho que eu a acompanho por lá.
Ela trouxe alguns cards com conceitos que, sinceramente, eu nunca tinha parado para pensar de forma tão direta. Coisas que fazem parte do nosso cotidiano, que a gente naturaliza, reproduz, e muitas vezes nem percebe. E eu me dei conta de que, se bobear, eu mesma já fiz várias delas.
O primeiro conceito foi cripface, que é quando atores ou atrizes sem deficiência interpretam personagens com deficiência. Na hora eu pensei: “Uai, mas qual o problema disso?”. E logo lembrei do filme 'Como Eu Era Antes de Você', um dos meus favoritos. O personagem é paraplégico, o ator não tem deficiência, e eu nunca questionei isso.
Eu só assisti, me emocionei, achei lindo — e segui a vida. A pergunta que fica é: por que não uma pessoa com deficiência real nesses papéis?
Depois, ela traz o pornô de inspiração, que é quando pessoas sem deficiência comparam suas vidas com as de pessoas com deficiência e sentem alívio ou satisfação por “não estarem naquela condição”. Tipo: “pelo menos eu tenho saúde”, “pelo menos eu consigo fazer isso”. E eu percebi o quanto isso é comum, inclusive em mim. A gente acha que está sendo grato, positivo, espiritualizado — mas muitas vezes está só se colocando num lugar de vantagem sem perceber.
Outro ponto é o lema “nada sobre nós sem nós”, que defende que nenhum projeto, política, lei ou campanha sobre pessoas com deficiência deveria existir sem a participação efetiva delas. Parece óbvio, mas a Patrícia mostra como muitas decisões são tomadas sem escutar quem vive aquela realidade.
Ela fala também de corponormatividade, essa lógica silenciosa de que existe um corpo padrão, ideal, produtivo — e que corpos fora desse modelo são vistos como imperfeitos ou incapazes. Quantas vezes a gente se surpreende quando vê uma pessoa com deficiência trabalhando, viajando, estudando, vivendo plenamente?
Aí entram ainda o capacitismo, que é a discriminação direta; o tokenismo, que é a inclusão de fachada (faz de conta que inclui, mas não transforma nada de fato); e o ablesplaining, quando pessoas sem deficiência acham que sabem explicar melhor a vivência de quem tem deficiência do que as próprias pessoas.
No fim, esse texto não é sobre culpa. É sobre percepção. Sobre perceber o quanto a gente pode estar bem-intencionado e, ainda assim, alheio a muitas coisas. Sobre como várias dessas práticas estão tão naturalizadas que passam despercebidas no nosso dia a dia.
Talvez o convite seja esse: olhar de novo. Escutar mais. Questionar o que a gente consome, o que a gente fala, o que a gente reproduz. E se perguntar, honestamente: em quais dessas situações eu também estou?
Obrigada, Patrícia Lorete, pelo texto, pelo incômodo bom e pelo aprendizado. E fica aqui a indicação: sigam, leiam, escutem. Porque abrir os olhos, às vezes, começa exatamente assim — com um post no meio do feed.
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