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OLHARES COTIDIANOS

Entre o gesto político e o esgotamento do corpo

Entre a folia e o silêncio, a escolha de descansar também revela quem decide sobre o próprio tempo e corpo

Sátina Pimenta | 12/02/2026, 12:34 h | Atualizado em 12/02/2026, 12:34
Olhares Cotidianos, por Sátina Pimenta

Sátina Pimenta

Sátina Pimenta, psicóloga clínica, advogada e professora universitária

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          Imagem ilustrativa da imagem Entre o gesto político e o esgotamento do corpo
Sátina Pimenta é psicóloga clínica, advogada e professora universitária. |  Foto: Divulgação

O Carnaval é frequentemente entendido como festa, mas ele é também um fenômeno político. Não apenas porque ocupa as ruas, produz discursos, visibiliza identidades e reorganiza temporariamente a cidade, mas porque suspende a lógica cotidiana do funcionamento social.

Durante alguns dias, o tempo desacelera, as hierarquias se embaralham e surge uma licença coletiva para existir de outros modos – mais livres, mais excessivos, mais corporais.

Historicamente, o Carnaval sempre foi território de expressão, transgressão e resistência simbólica. É o corpo que fala, que dança, que ocupa, que se mostra. É a cidade que muda de ritmo, que se abre ao encontro, que rompe – ainda que provisoriamente – com a lógica produtivista.

Mas, justamente por ser um grande dispositivo social de estímulo, presença e performance, o Carnaval também produz uma expectativa implícita: é preciso participar, estar, curtir, circular, mostrar vitalidade. A folia vira quase uma obrigação emocional.

É nesse ponto que descansar pode se tornar um gesto político. Não no sentido clássico da militância, mas como recusa ao imperativo da performance. Escolher não ocupar a rua, não vestir fantasia, não entrar no ritmo coletivo do excesso pode ser uma forma de reapropriação do próprio tempo e do próprio corpo.

Em uma cultura que valoriza visibilidade, estímulo constante e disponibilidade permanente, parar é um ato de resistência. O descanso, nesse caso, afirma limites e questiona a lógica de que existir é estar sempre em movimento, em cena, em produção.

Descansar, assim, não é ausência de vida social, mas uma outra forma de relação com ela. É dizer que o corpo não é apenas território de festa, consumo e espetáculo, mas também espaço legítimo de silêncio, cuidado e escolha.

Mas aqui é fundamental fazer uma distinção ética e clínica: descansar só é gesto político quando há escolha. Quando o sujeito poderia participar, mas decide não. Quando há margem de decisão sobre o próprio corpo.

Quando o descanso acontece porque há esgotamento psíquico, depressão, ansiedade, burnout, adoecimento emocional ou físico, não estamos falando de resistência, estamos falando de perda de autonomia. Nesse caso, o corpo não para por escolha, ele para por colapso. Não é reapropriação do tempo, é restrição do possível. Existe desejo de estar, mas não há energia para sustentar a presença.

Romantizar esse cansaço como ato político é perigoso, porque apaga o sofrimento real de quem já não consegue escolher. O adoecimento não é gesto simbólico, é limite concreto.

Talvez o Carnaval, com toda sua potência, nos coloque exatamente diante dessa pergunta: o quanto ainda temos liberdade para decidir como usar nosso corpo e nosso tempo?

Entre a festa e o silêncio, entre a rua e o quarto, entre a escolha e o esgotamento, o que está em jogo não é só como vivemos o Carnaval — é como estamos vivendo a própria vida.

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