2026: que humanidade desejamos reconstruir?
2026 desafia o país a rever valores e reconstruir o cuidado coletivo
Leitores do Jornal A Tribuna
Todo início de ano carrega um gesto simbólico: o de recomeçar. Mas 2026 chega ao Brasil não apenas como uma página em branco — chega como um espelho. Um espelho que reflete quem fomos, o que toleramos e, sobretudo, o que deixamos de cuidar enquanto corríamos atrás do imediato.
Desde Aristóteles, a filosofia nos lembra que o ser humano é um animal político, um ser que só se realiza plenamente na vida em comunidade. Para ele, a ética nunca foi abstrata: é prática, cotidiana, construída nas relações, na amizade (philia), na lealdade e no compromisso com o bem comum. Uma sociedade só é justa quando cria condições para que todos possam florescer.
Ao olharmos para o Brasil que encerra 2025 e inicia 2026, somos obrigados a reconhecer que algo essencial se rompeu. Seguimos convivendo com números alarmantes de assassinatos de mulheres, com a naturalização do machismo e com violências que muitas vezes nascem dentro de casa e se espalham pelas ruas. A indiferença passou a ocupar o lugar da indignação, e o silêncio frequentemente substitui a responsabilidade.
Aristóteles já afirmava que a virtude se forma pelo hábito. Não educamos apenas com discursos, mas com exemplos. Cada gesto de desrespeito, cada omissão e cada palavra violenta ensinam algo. Do mesmo modo, cada ato de cuidado, compromisso e lealdade também educa. A pergunta, portanto, é inevitável: o que estamos ensinando às nossas crianças e jovens por meio do que praticamos todos os dias?
Vivemos tempos de perdas precoces, de jovens atravessados pela violência, pelo desalento e pela falta de perspectivas. Se não assumirmos nossa responsabilidade coletiva, corremos o risco de entregar ao futuro adultos sem preparação emocional, sem força ética e sem confiança na vida em comum. Não por falta de talento, mas por ausência de cuidado, de referência e de sentido.
Max Weber nos lembrava que somos responsáveis não apenas por nossas intenções, mas também pelas consequências previsíveis de nossas ações — e omissões. A geração que cresce agora observa, aprende e reproduz. Aprende como resolvemos conflitos, como lidamos com a dor, como tratamos as diferenças e quanto valor atribuímos à vida humana.
Ainda há tempo de mudar. Mudar hábitos, discursos, prioridades e posturas. Reconstruir a humanidade que desejamos começa no cotidiano, no exemplo e na coragem de não naturalizar a violência. O futuro não será melhor apenas porque o ano virou, mas porque decidimos, conscientemente, cuidar melhor uns dos outros.
Essa reconstrução não pode recair apenas sobre escolhas individuais. Ela exige responsabilidade das famílias, das escolas, do Estado e da sociedade civil. Educar uma geração não é só garantir acesso à escola ou ao trabalho, mas oferecer sentido, pertencimento e exemplo. Cada atitude cotidiana constrói silenciosamente a sociedade que herdaremos.
Por isso, a pergunta que 2026 nos impõe não é retórica. Ela é urgente e profundamente ética: que humanidade estamos, de fato, dispostos a reconstruir para aqueles que vêm depois de nós?
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