“Não sei mais que dia é hoje”
Entre agendas cheias e pausas esquecidas, a beleza de viver o agora sem medir o tempo
Sátina Pimenta
Sátina Pimenta, psicóloga clínica, advogada e professora universitária
Eu confesso: eu amei ver aqueles posts pela internet dizendo “não sei mais que dia da semana é hoje”. Sério, achei muito bacana. E, mais ainda, porque eu mesma fui uma dessas pessoas. Passei alguns dias caminhando por um tempo mais fluido, sem agenda, sem cronômetro, sem saber se era terça ou domingo. E, de verdade, foi curioso perceber como isso mexeu comigo.
Tenho uma agenda que me acompanha o tempo inteiro – quase como uma extensão do meu pensamento. Começa cedo, termina tarde, cheia de compromissos bem marcados.
Sei que muita gente vive assim também: partilhando calendários, organizando blocos de tempo, garantindo que tudo — trabalho, filhos, encontros, descansos — caiba direitinho na vida.
Mas quando vi pessoas dizendo que haviam simplesmente esquecido o tempo, não senti desconforto. Senti algo como um “ah… estou vendo isso acontecer”. Há algo delicado nesse descompasso com o relógio: ele parece abrir uma janela para a presença genuína – não como meta, mas como experiência.
É aí que entra a Psicologia Positiva, campo que estuda o que nos faz bem, o que traz sentido e alegria, e não apenas produtividade.
Um conceito central é o da experiência autêntica do presente, muito próximo do que se chama de flow: quando a mente está inteira no agora, sem medir, comparar ou julgar. Não é perder o controle – é se permitir sentir a vida no ritmo em que ela acontece.
Não se trata de romantizar o caos ou defender que isso seja possível todos os dias. A questão não é abolir a organização, mas questionar o absolutismo dela.
Já falamos aqui sobre as “férias produtivas”: agendas cheias até no descanso, como se relaxar fosse um projeto. Falamos também sobre como, muitas vezes, prestamos mais atenção ao que ficou acontecendo longe de nós do que à própria pausa.
Porque já está evidente que a lógica da vida excessivamente ordenada, performática e ocupada adoece. Os afastamentos por ansiedade, depressão e burnout estão aí para provar. Não é sensação, é realidade.
Esse movimento de desaceleração alcança outros campos, inclusive a moda. Para 2026, a Pantone – referência mundial em comportamento e design – elegeu como cor do ano o “Cloud Dancer”, um branco suave, quase como respirar fundo.
Segundo a empresa, o tom simboliza serenidade, clareza e um convite à pausa, como uma tela em branco pronta para ser vivida.
E esse convite – de deixar acontecer, de sentir sem medir, de existir no agora – tem algo de profundamente romântico. Não como fantasia, mas como lembrança de que a vida não é só uma linha a cumprir, e sim uma sucessão de momentos que pedem presença.
Talvez seja isso: aprender a não esquecer o presente. Não por desorganização, mas porque, nessa permissão de viver, pode estar uma das formas mais bonitas de existir.
E isso, ah, isso é muito bonito. Talvez o tempo não precise ser sempre controlado; às vezes, ele só precisa ser sentido, respeitado e acolhido, como quem aprende a caminhar mais devagar sem culpa, permitindo que a vida aconteça com leveza.
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