A força silenciosa da sororidade
Quando mulheres se apoiam sem condições, o gesto simples se torna profundamente político
Sátina Pimenta
Sátina Pimenta, psicóloga clínica, advogada e professora universitária
Faço parte de um grupo de WhatsApp composto apenas por mulheres. Ele se chama Bolhas. Inclusive, ele é um grupo que se multiplica pelo Brasil, possuindo o mesmo nome e função em outros estados. À primeira vista, parece apenas isso: mais um grupo de mulheres. Mas, como acontece com tudo que realmente importa, ele se revelou muito mais do que parecia.
Lá, falamos de política, do cotidiano, de cultura, de acessos, de trocas práticas, de trabalho, de indignações e de descobertas. Mulheres vivendo, pensando e atravessando o mundo juntas.
Mas às vezes as histórias que circulam ali ganham a dureza da vida. São relatos de mulheres abandonadas, mulheres exaustas, mulheres que perderam o chão emocional, financeiro, profissional ou afetivo. Histórias de rupturas, reviravoltas, quedas e reconstruções.
Histórias que, se contadas em muitos outros espaços, provavelmente seriam recebidas com perguntas, conselhos não solicitados, análises morais ou tentativas de encontrar culpados. Mas ali, não.
Isso é algo que me emociona e me dá esperança. O que me atravessa na verdade é o posicionamento coletivo do grupo: nenhuma das histórias é recebida com críticas. Não há interrogatórios. Não aparece o clássico “mas você fez o quê?”, “por que ficou tanto tempo?”, “será que não exagerou?”, “e se você tivesse…”. Não há exigência de justificativa, explicação ou defesa. Só apoio. Ponto!
Djamila Ribeiro, uma das principais vozes do feminismo brasileiro contemporâneo, nos lembra que não existe transformação social sem uma ética do cuidado que seja coletiva e situada.
Em seus escritos dos últimos anos, ela aponta que empatia não é sentimento abstrato, mas prática concreta, que se expressa na forma como escolhemos escutar, agir e sustentar o outro no cotidiano.
Mulheres apoiando mulheres – emocionalmente, financeiramente, socialmente, amorosamente – sem impor condições. Sem pedir atestado de merecimento. Sem tentar hierarquizar dores ou medir quem sofreu mais.
Aquilo que tantas vezes dizemos defender, mas raramente conseguimos sustentar na prática, estava acontecendo ali, de forma simples e potente. E isso é profundamente revolucionário.
A sororidade, quando vivida assim, não é idealização romântica. Ela não ignora conflitos, diferenças ou tensões. Ela apenas recusa a lógica patriarcal que nos ensinou a competir, desconfiar e exigir justificativas permanentes da existência feminina.
Essa experiência me fez perceber que a sororidade é uma prática que muda histórias de vida – das que recebem e das que oferecem.
Ela rompe, ainda que silenciosamente, com a lógica patriarcal que nos ensinou a competir, a desconfiar e a nos explicar o tempo todo.
Talvez seja assim que a gente muda a história. Não com grandes discursos, mas com gestos sustentados. Não tentando salvar o mundo, mas criando espaços onde mulheres possam existir sem precisar se defender. E isso, definitivamente, não é pouco.
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