Ano Novo e talvez eu não queira começar nada novo
Em meio à pressão por recomeços, reflexão propõe valorizar a continuidade, o cuidado e o caminho já construído
Sátina Pimenta
Sátina Pimenta, psicóloga clínica, advogada e professora universitária
No meio desses tantos posts prontos de “o que fazer em 2026”, me deparei com uma frase que me atravessou de um jeito diferente: “Pela primeira vez, eu não quero começar nada no Ano Novo. Eu só quero continuar.”
Esse post me arrebatou, pois trouxe um significado enorme para mim, porque tocou num ponto que raramente a gente se permite reconhecer: a possibilidade de estar no caminho certo.
A virada do ano carrega esse simbolismo quase obrigatório do recomeço. Metas, listas, promessas, mudanças. Sempre algo novo, novo, novo. Como se aquilo que já existe precisasse ser descartado para dar lugar a algo melhor. Como se o valor estivesse apenas no que ainda não foi vivido.
Mas… E aquilo que está funcionando? E aquilo que está bom? E aquilo que foi construído com esforço, afeto e constância?
Talvez a energia que a gente precise agora não seja a do recomeço, mas a da continuidade.
Vivemos numa lógica em que o novo é sempre vendido como melhor. O antigo, como ultrapassado. E, nessa pressa por novidades, a gente corre o risco de esquecer tudo o que conquistou ao longo do tempo — relações, aprendizados, rotinas, afetos, projetos que deram certo exatamente porque foram cuidados.
Gosto de pensar nisso por meio de uma metáfora simples: as roupas. Sabe aquela roupa linda, confortável, que veste bem, que você gosta muito? Ela não perde o valor por não ser nova.
Pelo contrário. Ela já provou que funciona. Talvez ela não precise ser trocada. Talvez ela só precise de uma tintura, um ajuste, um detalhe a mais, um brilho novo para realçar a beleza que já existe.
A vida, muitas vezes, é assim.
Pela primeira vez em muito tempo eu tenho conseguido me ver nesse lugar: não quero começar nada agora. Quero aprimorar. Quero cuidar melhor do que construí até aqui. Isso não significa estagnação. Significa maturidade.
Vivemos numa sociedade que nos empurra para o excesso de produção, de metas e de desejos. E, nessa ânsia constante por algo maior, melhor e mais novo, corremos o risco de não sermos gratos por aquilo que está ali todos os dias, sustentando a nossa existência silenciosamente.
Será que o tempo inteiro eu preciso buscar algo maior do que o que já tenho?
Será que aquilo que eu tenho já não me basta, ao menos por agora?
Essa reflexão dialoga muito com Zygmunt Bauman e nos ajuda a pensar: vivemos relações, desejos e expectativas cada vez mais líquidas, descartáveis, substituíveis. E isso atravessa tudo – inclusive a maternidade, os vínculos, os projetos de vida. A lógica da troca rápida nos afasta da permanência, do cuidado, da continuidade.
Talvez, neste fim de ano, o gesto mais revolucionário não seja criar novas metas. Talvez seja honrar o caminho percorrido.
Reconhecer que estar satisfeito não é sinônimo de acomodação. Que continuar também é um movimento. Que aprofundar pode ser mais transformador do que recomeçar.
No dia 31 de dezembro, em vez de listar tudo o que falta, talvez possamos olhar com mais gentileza para tudo o que já foi feito, construído e sustentado ao longo do ano. Nem tudo precisa nascer de novo. Algumas coisas só precisam continuar – com mais presença, mais consciência e mais amor.
Talvez o novo ano não peça um começo. Talvez ele peça cuidado com o que já existe.
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