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OPINIÃO INTERNACIONAL

O dever do eleitor é saber escolher

Comparação entre governos aborda diplomacia brasileira, relações com os EUA e o papel do direito internacional

José Vicente de Sá Pimentel | 16/03/2026, 13:21 h | Atualizado em 16/03/2026, 13:21
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel

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          Imagem ilustrativa da imagem O dever do eleitor é saber escolher
José Vicente de Sá Pimentel nascido em Vitória, é embaixador aposentado. |  Foto: Divulgação

A historiadora Carmen Lícia Palazzo desabafou no Instagram sua indignação com o  pessoal que considera Lula e Bolsonaro farinha do mesmo saco. Concordo com ela; há  mais diferenças do que semelhanças entre eles, inclusive no entendimento que têm das  relações internacionais.

Lula vem defendendo o Direito Internacional e o multilateralismo, mantém nas interações  com Trump uma postura de esclarecida altivez, e foi assim que se produziu a famosa  química entre os dois, na última Assembleia Geral da ONU. Bolsonaro praticou em seu  governo a política do “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” e, em  2019, na ONU, ao ver Trump se encaminhar para o pódio, disparou um “I love you”, mas o  americano respondeu com um muxoxo.  

É evidente que os interesses dos EUA e do Brasil divergem em muitos aspectos, e é natural  que seja assim. No entanto, um falso pragmatismo faz com que alguns argumentem que,  sendo os EUA tão fortes, melhor seria alinhar-se a eles e esquecer quaisquer veleidades  de independência. Mas a submissão não garante nada. Maria Corina entregou a Trump a  medalha do Nobel da Paz, e nem por isso desalojou Delcy do palácio de Miraflores. Os  líderes europeus sentaram-se no Salão Oval da Casa Branca como se fossem alunos  obedientes, e o desprezo dos governantes americanos só fez aumentar. Gianni Infantino  que se cuide, porque os iranianos já estão sendo enxotados da Copa, e mais pode vir por  aí. 

Em janeiro, repórteres do New York Times perguntaram a Trump quais os limites que ele  admitiria a seu poder nas relações internacionais. A resposta foi: “um só: a minha própria  moralidade”. Alguém aludiu ao Direito Internacional, e ele descartou: “não preciso de  Direito. Não quero ferir ninguém”. No entanto, milhares estão sendo bombardeados e  mortos no Irã, inclusive Khamenei e 175 meninas entre 7 e 12 anos, que se encontravam  numa escola em Teerã.  

Os ataques são manifestamente ilegais. Violam o artigo primeiro da Carta das Nações  Unidas, que prevê medidas efetivas para evitar e reprimir qualquer ruptura da paz. Trump  sequer se preocupa em dar uma justificação minimamente razoável para o que faz. Um dia  depois do início dos bombardeios, postou um vídeo de 8 minutos em que dizia ter atuado para proteger o povo americano de “ameaças iminentes”, como a invasão da embaixada  americana, o apoio a grupos terroristas e o acesso a armas nucleares. Ora, nada de  iminente havia na crise dos reféns, que se deu em 1979; o programa nuclear iraniano teria  sido, segundo declarações públicas do próprio Trump, “totalmente obliterado” nos bombardeios de junho de 2025, e quanto aos grupos terroristas, o perigo começa agora,  pois já começaram a agir no Iraque e sabe-se lá o que podem fazer mundo afora. 

Para os que pensam como Trump, o Direito Internacional é um símbolo de fraqueza.  Ocorre que, para um país como o Brasil, as normas do direito e as regras da diplomacia  não são um luxo dispensável; são a nossa segurança, um freio à lei do mais forte. São  também um recurso civilizatório, capaz de poupar as nações dos efeitos perniciosos do  hubris de certos dirigentes. Trump acabará punido pelos seus atos. Nos EUA, os preços da  gasolina estão mais de 20 por cento mais caros, e podem subir mais, já que o governo  não parece ter um plano de saída. As pesquisas eleitorais estão registrando um  descontentamento crescente entre os eleitores. O resto do mundo, porém, já está  pagando. 

A excitação permanente, a imprevisibilidade, a confusão de valores acabam afetando a  nervura psicossocial do povo. Em dezembro, o Manhattan Institute, think tank de direita,  avaliou que 31% dos eleitores republicanos com menos de 50 anos de idade se  consideram racistas, 25% são antissemitas, e a maioria acredita que o Holocausto  nunca existiu. Não à toa, o candidato a governador da Flórida James Fishback está  atraindo multidões de jovens a seus comícios. Embora seja filho de uma colombiana, é  contra os imigrantes e segue, em geral, a linha de Nick Fuentes, o influencer de  ultradireita, que já elogiou Adolf Hitler e nunca fez sexo com mulheres por repulsa ao  gênero.  

Carmen Lícia tem razão. Há sempre diferenças entre os candidatos e é importante  escolher bem. A escolha nas urnas tem consequências, e o dever do eleitor é saber  escolher.

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