O dever do eleitor é saber escolher
Comparação entre governos aborda diplomacia brasileira, relações com os EUA e o papel do direito internacional
José Vicente de Sá Pimentel
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A historiadora Carmen Lícia Palazzo desabafou no Instagram sua indignação com o pessoal que considera Lula e Bolsonaro farinha do mesmo saco. Concordo com ela; há mais diferenças do que semelhanças entre eles, inclusive no entendimento que têm das relações internacionais.
Lula vem defendendo o Direito Internacional e o multilateralismo, mantém nas interações com Trump uma postura de esclarecida altivez, e foi assim que se produziu a famosa química entre os dois, na última Assembleia Geral da ONU. Bolsonaro praticou em seu governo a política do “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil” e, em 2019, na ONU, ao ver Trump se encaminhar para o pódio, disparou um “I love you”, mas o americano respondeu com um muxoxo.
É evidente que os interesses dos EUA e do Brasil divergem em muitos aspectos, e é natural que seja assim. No entanto, um falso pragmatismo faz com que alguns argumentem que, sendo os EUA tão fortes, melhor seria alinhar-se a eles e esquecer quaisquer veleidades de independência. Mas a submissão não garante nada. Maria Corina entregou a Trump a medalha do Nobel da Paz, e nem por isso desalojou Delcy do palácio de Miraflores. Os líderes europeus sentaram-se no Salão Oval da Casa Branca como se fossem alunos obedientes, e o desprezo dos governantes americanos só fez aumentar. Gianni Infantino que se cuide, porque os iranianos já estão sendo enxotados da Copa, e mais pode vir por aí.
Em janeiro, repórteres do New York Times perguntaram a Trump quais os limites que ele admitiria a seu poder nas relações internacionais. A resposta foi: “um só: a minha própria moralidade”. Alguém aludiu ao Direito Internacional, e ele descartou: “não preciso de Direito. Não quero ferir ninguém”. No entanto, milhares estão sendo bombardeados e mortos no Irã, inclusive Khamenei e 175 meninas entre 7 e 12 anos, que se encontravam numa escola em Teerã.
Os ataques são manifestamente ilegais. Violam o artigo primeiro da Carta das Nações Unidas, que prevê medidas efetivas para evitar e reprimir qualquer ruptura da paz. Trump sequer se preocupa em dar uma justificação minimamente razoável para o que faz. Um dia depois do início dos bombardeios, postou um vídeo de 8 minutos em que dizia ter atuado para proteger o povo americano de “ameaças iminentes”, como a invasão da embaixada americana, o apoio a grupos terroristas e o acesso a armas nucleares. Ora, nada de iminente havia na crise dos reféns, que se deu em 1979; o programa nuclear iraniano teria sido, segundo declarações públicas do próprio Trump, “totalmente obliterado” nos bombardeios de junho de 2025, e quanto aos grupos terroristas, o perigo começa agora, pois já começaram a agir no Iraque e sabe-se lá o que podem fazer mundo afora.
Para os que pensam como Trump, o Direito Internacional é um símbolo de fraqueza. Ocorre que, para um país como o Brasil, as normas do direito e as regras da diplomacia não são um luxo dispensável; são a nossa segurança, um freio à lei do mais forte. São também um recurso civilizatório, capaz de poupar as nações dos efeitos perniciosos do hubris de certos dirigentes. Trump acabará punido pelos seus atos. Nos EUA, os preços da gasolina estão mais de 20 por cento mais caros, e podem subir mais, já que o governo não parece ter um plano de saída. As pesquisas eleitorais estão registrando um descontentamento crescente entre os eleitores. O resto do mundo, porém, já está pagando.
A excitação permanente, a imprevisibilidade, a confusão de valores acabam afetando a nervura psicossocial do povo. Em dezembro, o Manhattan Institute, think tank de direita, avaliou que 31% dos eleitores republicanos com menos de 50 anos de idade se consideram racistas, 25% são antissemitas, e a maioria acredita que o Holocausto nunca existiu. Não à toa, o candidato a governador da Flórida James Fishback está atraindo multidões de jovens a seus comícios. Embora seja filho de uma colombiana, é contra os imigrantes e segue, em geral, a linha de Nick Fuentes, o influencer de ultradireita, que já elogiou Adolf Hitler e nunca fez sexo com mulheres por repulsa ao gênero.
Carmen Lícia tem razão. Há sempre diferenças entre os candidatos e é importante escolher bem. A escolha nas urnas tem consequências, e o dever do eleitor é saber escolher.
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