Mais sabe o diabo por ser velho do que por ser diabo
Do Watergate ao caso Jeffrey Epstein, investigações e tensões políticas expõem novo teste à democracia dos Estados Unidos
José Vicente de Sá Pimentel
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Lembro bem do escândalo de Watergate. Eu servia na embaixada em Washington em 1973 e acompanhava as investigações da Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados americana sobre as acusações que pesavam sobre o presidente Nixon. A imprensa trombeteava cada detalhe que descortinasse a culpa do investigado, mas nenhuma decisão era anunciada.
Os trabalhos prosseguiam, metódicos e implacáveis, até que em agosto de 1974 Nixon não resistiu à pressão e renunciou.
Lembro desse episódio ao ler o noticiário sobre a atual situação política interna dos EUA. Tenho presente a ponderação de Marx, no 18 Brumário, de que a História se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Não está excluída a hipótese de que o affaire Jeffrey Epstein acabe em pizza, pelo menos nos EUA. Há, porém, muita gente se empenhando para que isso não aconteça.
O New York Times destacou uma equipe de 25 jornalistas para destrinchar, com ajuda de engenheiros e peritos em IA, o lote de documentos que a Casa Branca teve de divulgar, em obediência à lei aprovada pelo Congresso com votos de Democratas e Republicanos. São 3 milhões de páginas, 2 mil vídeos e 180 mil imagens. Se empilhado, esse material teria a altura do Empire State. A primeira fase do trabalho, que apenas começou, consiste em separar nomes, lugares e fatos.
Ubíquo, maleável, Epstein tinha uma rede de contatos que se desdobrava em três círculos, o do dinheiro, o do poder e o do sexo. Suas garras se estendiam de Wall Street ao Vale do Silício, de Washington a Hollywood, Israel, Londres e Paris. Seus bilhetes e e-mails erravam na gramática, mas acertavam nos destinatários: bilionários tecnolibertários ligados a Trump, como Elon Musk e Peter Thiel, ou próximos aos Democratas, como Bill Gates e Lawrence Summers; líderes do movimento MAGA, como Steve Bannon, ou filósofos de esquerda, como Noam Chomsky; políticos como o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak e o britânico Peter Mandelson; membros da realeza, como o príncipe Andrew, e claro, um presidente que quer ser rei, Donald Trump.
Há entrevistas gravadas em que Trump dizia que Epstein “era muito divertido”. O Wall Street Journal divulgou um perfil de mulher nua, enviado por Trump por ocasião do 50º aniversário de Epstein, com a carinhosa mensagem: “que cada dia seja um novo maravilhoso segredo”. O pessoal da Casa Branca tem censurado vários documentos, apagando nomes e imagens, mas há hackers do bem procurando recompor o que foi editado para ocultar as estripulias do chefe.
Os problemas de Epstein atraíram a atenção da lei na virada do século. Em 2008, um tribunal na Flórida condenou-o por crime sexual. Mesmo depois disso, contudo, seus contatos garantiam-lhe livre trânsito em setores sensíveis. Quando a administração do JPMorgan Chase tentou romper com ele, um alto executivo do banco, Jes Staley, bloqueou a ruptura, demonstrando que Epstein havia trazido clientes bilionários como Sergey Brin, Bill Gates, Elon Musk e Sultan Ahmed bin Sulayem.
Enquanto as investigações encabeçadas pelo Congresso e pela imprensa prosseguem paulatinamente, no Reino Unido os estragos já se fazem sentir. Destituído dos títulos e honrarias reais, despejado da propriedade real em Windsor, o antigo príncipe Andrew deixou de ser Duque de York e virou o cidadão Andrew Mountbatten Windsor. Por sua vez, Peter Mandelson, ex-embaixador britânico em Washington, enfrenta uma investigação criminal e pode acabar seus dias na cadeia.
Onde isso vai acabar, não se sabe. Motivará, sem dúvida, muita discussão durante as campanhas eleitorais americanas, que em novembro próximo elegerão a totalidade dos 435 deputados e um terço dos 100 senadores. Quem está oferecendo um spoiler do clima eleitoral é a deputada Marjorie Taylor Greene. Porta-voz da seita conspiracionista QAnon, segundo a qual Trump lutava contra os adoradores de Satanás aboletados no alto escalão do governo, do mundo empresarial e da imprensa, Marjorie rompeu com Trump, renunciou ao mandato e vem dando entrevistas com acusações terríveis aos ex-colegas Republicanos.
Um amigo estressado me disse temer que Trump inicie a terceira guerra mundial para defletir a possível eleição em novembro de uma maioria Democrata, e assim evitar seu impeachment. Receitei-lhe uma dose reforçada de água com açúcar. Prevejo, em vez de uma guerra, novos capítulos da decadência da democracia americana, sob a forma de expedientes para viciar as eleições legislativas.
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