Comedimento da diplomacia
O que se precisa evitar é que violências espetaculares como a deste sábado vitimizem o Direito Internacional
José Vicente de Sá Pimentel
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A primeira observação a fazer é que o ataque israelo-americano ao Irã na manhã de ontem não era necessário do ponto de vista militar ou de política externa. Embora deva ser considerado sempre uma ameaça a Israel, o Irã não colocava em perigo nenhum interesse estratégico imediato dos EUA. Depois do bombardeio de junho do ano passado, o Irã passou a ser descrito como um tigre de papel.
Os protestos internos enfraqueceram o governo e a repressão violenta foi condenada pela opinião pública. Tudo parecia indicar que uma pressão econômico-diplomática seria suficiente para lograr mudanças no acordo nuclear e, a médio prazo, alguma evolução política interna, sem o risco de mais desassossego regional.
Mas o estilo de Trump não acomoda o comedimento da diplomacia. Ele quer o espetáculo, quer se ver nas telas de televisão, posar de comandante das forças armadas mais destrutivas do planeta. Não gosta de ser comparado com Biden, que no entender dos Republicanos teve uma política externa excessivamente negociadora e, por essa lógica, muito fraca. Trump não queria negociar com o Irã, queria acabar com o programa nuclear, que é, do ponto de vista iraniano, o único instrumento de dissuasão contra Israel. O senador Lindsey Graham e outros da ala chamada de “falcões” vinham insistindo para que o presidente deixasse “de falar como Reagan e agir como Obama”. Ele não podia admitir essa comparação, tinha que agir com contundência.
Suponho que Trump exija agora a completa rendição do Irã. O problema é que, encostado nas cordas, o governo iraniano não terá alternativa senão resistir. Resta esperar para ver se terá condições de retaliar. O único tipo de retaliação que pode causar preocupação a Trump é a morte de soldados americanos. A imagem de caixões cobertos pela bandeira americana causa horror a qualquer hóspede da Casa Branca, além da perda de votos. Os EUA têm cerca de 40 mil soldados estacionados em treze bases navais e militares no Oriente Médio. Há alguns dias, o embaixador iraniano nas Nações Unidas alertou que, se atacado, o Irã entenderia que “as bases, as propriedades e demais bens e recursos dos agressores são alvos legítimos”.
Outra retaliação possível seria utilizar os houthis para voltar a atacar embarcações no Mar Vermelho. Ou, ainda, danificar navios no Estreito de Hormuz. Ações desse gênero acrescentariam instabilidade a um comércio internacional já vitimado pelas tarifas trumpistas. Pior de tudo seria se os grupos terroristas associados ao Irã passassem a desferir ataques a alvos civis, com homens-bomba ou sequestros de aeronaves.
O que se precisa evitar é que violências espetaculares como a da manhã deste sábado vitimizem o Direito Internacional. As regras cultivadas durante centenas de anos e destinadas à proteção da paz, à convivência pacífica entre Estados soberanos, à prevenção de conflitos e à criação de um ambiente global propício ao comércio e ao desenvolvimento, não podem ficar à mercê do mais forte. O grande desafio da diplomacia e do bom senso é restabelecer as normas civilizatórias do Direito, e o caminho possível para isso é reforçar o multilateralismo. Por mais difícil, o caminho é esse.
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