Ventos de mudança
Trump, eleições e o impacto global de uma liderança sem ideologia
José Vicente de Sá Pimentel
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Teremos este ano eleições fundamentais no Brasil e nos EUA. Embora não sejam presidenciais, as eleições americanas podem condicionar o desempenho posterior do governo Trump.
A política externa não costuma figurar nas campanhas de eleições brasileiras. No entanto, a amplitude das iniciativas do governo Trump afeta o mundo inteiro e incide sobre nossos interesses. Sendo assim, exige posicionamentos dos envolvidos também em eleições para governos estaduais e para cargos federais.
De início, os candidatos precisariam refletir sobre qual é a verdadeira posição do presidente americano. Será de direita, de esquerda, de centro? A meu ver, o trumpismo é uma cesta de ideias amorfas e mal desenvolvidas por uma liderança singularmente carismática. Trump não tem ideologia. Na verdade, caracteriza-se pela falta de ideais, o que lhe permite mudar de direção como quem muda de roupa. Não acredita em leis, ou em multilateralismo, é um “unilateralista” e já declarou publicamente que seu único limite é a própria moralidade. Quer o poder, e para tanto julga que basta cultivar a massa de americanos que, alegremente, sonham “se tornar grandes de novo”.
Decorre daí uma primeira lição. Surfar a onda trumpista não é para iniciantes. Trump descartará sem hesitação todos aqueles que não lhe assegurarem vantagens. Portanto, nada de usar bonezinho da MAGA. Quem se deixar fotografar com aquele bonezinho não merecerá o voto de ninguém que saiba o que MAGA significa.
A segunda lição é que o mundo ficou pequeno e as relações internacionais estão mais complexas. Sendo assim, convém estudar um pouco e refletir sobre o que importa de fato para o Brasil. Prestem atenção ao que Lula vem fazendo. Ele vem dando verdadeiras aulas de diplomacia.
Aos candidatos presidenciais em São Paulo, deixo uma sugestão especial. Convidem o embaixador Rubens Ricupero para um almoço, reservem pelo menos uma hora para ouvi-lo discorrer, em particular, sobre as nossas relações com os EUA. Vai ser muito instrutivo, ninguém mais vai usar bonezinho.
Por sua vez, nos EUA, uma pesada apatia tem paralisado os Democratas e os meios artísticos que tradicionalmente inspiram movimentos populares de resistência ao poder de turno. O bullying feroz do presidente parecia assustar o show business, a passividade do eleitorado gerava um sentimento de impotência, os altos níveis de popularidade de Trump vinham gerando desânimo. O Projeto 2025 criou meios de multiplicar os ataques da Casa Branca ao estado de direito, às minorias, às universidades, à saúde pública, ao meio ambiente, à ciência e ao próprio povo americano.
Foi a chamada “batalha de Minneapolis” e as mortes de Renée Good e Alex Pretti que acordaram uma parte da opinião pública, enfim decidida a se posicionar publicamente contra a violência da polícia de imigração e fronteiras. Ventos de mudança começaram a soprar.
Aos protestos em Minnesota e em outras cidades, veio juntar-se, graças à insistência de congressistas Democratas e Republicanos, a comoção pública com a divulgação de parte dos arquivos de Jeffrey Epstein. Cerca de 3 milhões de imagens, documentos, fotos e vídeos sobre o financista e sua rede de pedofilia foram divulgados no último fim de semana. A clientela de Epstein abarca ilustres representantes da oligarquia russa, da cúpula dos petrodólares, de Hollywood, Palo Alto, Westminster e Washington. Mais de mil mulheres, meninas e meninos foram traficados, e falta divulgar outros três milhões de arquivos, ainda em poder da Justiça. Fotos e vídeos comprovam a proximidade entre Trump e Epstein.
O cenário se altera visivelmente no país. Novas canções de protesto causam o delírio de plateias entusiásticas. Jovens se avolumam em manifestações programadas em várias cidades. O governo finalmente parece sentir o golpe.
Estou curioso para ver o que acontecerá no Super Bowl de hoje. Os organizadores do evento convidaram o portorriquenho Bad Bunny para fazer o show no intervalo do jogo. Superpremiado no Grammy, o cantor mais escutado hoje em dia nas plataformas de streaming, Bad Bunny se tornou um militante opositor de Trump depois que o comediante Tony Hinchcliffe, convidado a animar um comício da campanha republicana em outubro de 2024, qualificou Porto Rico de uma “ilha de lixo flutuando no Atlântico”.
Em 2025 a audiência do Super Bowl foi de 134 milhões de espectadores. Será que Bad Bunny vai perder essa oportunidade de fazer uma declaração política contra o governo Trump?
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