Trump e a ruptura do sistema
Retórica errática de Trump reacende tensões globais e expõe riscos à ordem internacional
José Vicente de Sá Pimentel
Caro leitor, retomo as nossas conversas com uma sensação de déjà vu. Neste ano novo, como no velho, as crises sequer terminam e já lá vem uma barbaridade. A armada americana deixa a Venezuela imersa em caos e se dirige para Teerã, felizmente sem pernoite previsto na Groenlândia.
As imagens de Minneapolis e a divulgação de novos arquivos de Jeffrey Epstein não alteram, até agora, a popularidade do governo entre os eleitores americanos. Os palestinos sumiram do noticiário, mas Trump continua dono das manchetes. Fala sem parar. O New York Times teve a pachorra de contar quantas palavras o presidente pronunciou no primeiro ano do segundo mandato. Pois foram um milhão, novecentas e setenta e sete mil, um aumento de 245 por cento em relação às proferidas em equivalente período do primeiro mandato. E o conteúdo não melhorou.
O discurso de Trump no Foro Econômico Mundial de Davos foi um festival de horrores. Recapitulemos. Alguns dias antes, ele havia dado a público o teor de comunicação enviada ao Primeiro-Ministro da Noruega, em que ameaçava anexar militarmente a Groenlândia. Consignava, na correspondência oficial, tratar-se de represália por não ter recebido o prêmio Nobel. A reação em todo o mundo foi péssima, como qualquer assessor deveria ter alertado. No pódio de Davos, ele suavizou um pouco. Admitiu que não invadiria a ilha dinamarquesa, a que se referiu quatro vezes como “Islândia”, e outras tantas como “um pedaço de gelo”.
Mas nos restantes 90 minutos de sua arenga (mais que o dobro da soma do tempo utilizado por Emmanuel Macron e Friedrich Merz), desdenhou da “gente estúpida” que usa energia eólica; chamou a Dinamarca de “ingrata” por não lhe ceder a Groenlândia; reclamou da “forma injusta” com que a OTAN trata os EUA; confidenciou que impôs tarifas à Suíça porque “uma mulher” – no caso, a ex-presidente Karin Keller-Sutter –, foi grosseira com ele, e por aí foi. À noite, numa recepção para bilionários, divagou, num solilóquio, que “às vezes, é bom ter um ditador”.
A manhã seguinte foi reservada para reuniões midiáticas sobre o Conselho da Paz. Ao ser anunciada pela Casa Branca em 16 de janeiro, a iniciativa havia sido bem recebida. Aparentava harmonizar-se com a Resolução 2803 da ONU, dedicada especificamente à situação no Oriente Médio. No entanto, declarações posteriores de Trump revelaram que o novo órgão seria, na prática, um simulacro perverso do Conselho de Segurança da ONU (CSNU), com Trump como presidente vitalício.
O próprio Trump passou a convidar os países, sem maiores explicações sobre a tarefa a realizar. Cerca de vinte aceitaram até agora. Os que mais chamaram a atenção, contudo, foram os que recusaram o convite. Entre estes, encontram-se Alemanha, Espanha, França e Itália, além do Canadá, que foi “desconvidado”, depois do discurso de Mark Carney em Davos. Foi, aliás, o discurso que marcou o evento.
O Primeiro-Ministro canadense invocou uma reflexão de Vaclav Havel sobre como os países da Cortina de Ferro viveram a mentira do comunismo. Para Havel, “o poder do sistema provém não da Verdade, e sim da vontade de todos que seja verdade. Quando uma só pessoa para de fingir, a ilusão começa a se quebrar”. Carney se tornou esse mensageiro da verdade ao anunciar que Trump, com suas tarifas e desaforos, promoveu a ruptura do sistema e transformou a integração político-econômica numa forma de subordinação ao poder hegemônico dos EUA.
Também convidado, o Brasil vem defendendo que o Conselho trumpista volte ao leito original e dedique-se apenas à reconstrução de Gaza. Esta seria a saída racional para uma iniciativa fadada a criar grandes problemas. Em paralelo, o pulo do gato, a meu ver, seria aproveitar as conversas de Lula com Trump, durante a próxima visita presidencial aos EUA, para obter o apoio americano não à extinção, e sim a uma reforma que transforme o CSNU num órgão moderno e eficaz, no qual o Brasil seria um membro permanente. Improvável, pode ser; impossível não é. Vai que a química funciona. Edgar Morin já nos ensinou que grandes acontecimentos históricos podem resultar de ambivalências que escapam ao controle das intenções originais.
Devaneio, talvez, pois eu preferiria não ser pessimista neste retorno ao nosso convívio dominical. Mas não tem jeito, e me consolo ao registrar que nunca me enganei, ou enganei meus leitores sobre Trump. Qual Henry James, eu sempre esperei o pior, e tem sido pior do que esperei.
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