Não é sobre Mozart
Sobre música, tempo, atenção e o que perdemos quando tudo precisa começar pelo refrão
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
Aceitemos o ponto de partida: há músicas que nos organizam por dentro.
A música acompanhou o ritmo do mundo, e talvez o tenha reforçado. Ela ajudou a marcá-lo, legitimá-lo e, em muitos momentos, a acelerá-lo.
Guerras sempre tiveram trilha sonora. Não apenas para exaltar heroísmo, mas para organizar a emoção coletiva. Marchas não apenas coordenam passos; sincronizam mentes e frequentemente reduzem o espaço do pensamento individual. Cadência é comando. Talvez não por acaso, a música militar seja repetitiva, previsível, sem ambiguidade. Ela não convida à reflexão; sustenta a ação.
Cada ciclo histórico teve sua sonoridade dominante. Industrialização pediu ritmo constante. Produção em massa pediu repetição. Consumo pediu refrões fáceis, reconhecimento imediato, identidade rápida. A música popular foi se moldando a isso não por empobrecimento artístico, mas por adaptação estrutural. Primeiro o tempo da fábrica, depois o tempo do mercado, agora o tempo do algoritmo, que premia o imediato.
Movimentos políticos entenderam isso cedo. Hinos, canções de protesto, jingles eleitorais, todos operam no mesmo campo: não explicam ideias, produzem pertencimento. Música cria “nós” antes do argumento. Ela antecede o discurso racional. Por isso funciona tão bem. Por isso também é perigosa quando usada sem consciência.
Nas últimas décadas, a música parece ter passado menos a organizar o tempo coletivo e mais a intensificar e acelerar emoções, acompanhando, e por vezes reforçando, a lógica da urgência permanente.
Falar de qualidade musical não é elitismo, nem nostalgia. É falar de responsabilidade cultural. Por qualidade, falo de forma: estrutura musical é estrutura de atenção. Ritmo é forma de pensar. Harmonia é treino de convivência entre diferenças.
O chamado “efeito Mozart”, a ideia de que ouvir composições de Mozart pode favorecer a organização e a concentração, costuma ser tratado como curiosidade científica. Há quem se apresse em provar, quem se dedique a refutar. Penso que essa disputa é pouco interessante.
Não porque Mozart fosse um gênio inalcançável, embora fosse, mas porque certas estruturas musicais criam ordem, continuidade e previsibilidade sem monotonia. Elas exigem atenção, mas não tensão. Estimulam, mas não atropelam. Isso, por si só, já é um efeito relevante.
O efeito Mozart nos lembra que música não é neutra. Ela educa o ouvido e, junto com ele, educa tolerância ao conflito, à espera, à resolução e ao silêncio. Não é sobre Mozart. É sobre qualidade. Sobre complexidade bem resolvida. Sobre música que não trata o ouvinte como alguém a ser capturado, mas como alguém capaz de sustentar atenção. Otto.
Talvez o efeito positivo não esteja em aumentar QI, foco ou produtividade. Talvez esteja em algo mais simples — e mais raro: treinar a paciência cognitiva. A capacidade de acompanhar uma ideia até o fim. De ouvir sem pular. De aceitar que nem tudo precisa começar pelo refrão.
Em um mundo que nos empurra para o ruído contínuo, uma música que respeite estrutura e tempo funciona como um contraponto silencioso. Não acelera, alinha.
E isso, convenhamos, já é um efeito suficiente.
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Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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PÁGINA DO AUTOREntre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.