Liquidação do Banco Master: 32 mil clientes aguardam liberação de dinheiro
Sob pressão, ministro paralisará o processo ao menos no recesso. Presidente da Corte disse que ela não pode desfazer liquidação
Fundo trava dinheiro para 32 mil no Espírito Santo
Passados 50 dias da liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, correntistas e investidores ainda não receberam os valores garantidos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Para que os pagamentos sejam iniciados, o FGC precisa receber do liquidante a lista consolidada de credores com direito à garantia, etapa que normalmente leva entre 30 e 40 dias. O fundo afirma que está pronto para iniciar os repasses assim que a relação for concluída, respeitando o limite de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
Enquanto isso, recursos permanecem paralisados e sem correção, ampliando perdas reais de investimentos como CDBs. A liquidação envolve cerca de 1,6 milhão de credores — numa estimativa de 32 mil no Espírito Santo — e um potencial desembolso de aproximadamente R$ 41 bilhões, o maior da história do FGC, criado em 1995.
Historicamente, o maior resgate havia sido o do Bamerindus, em 1997, com R$ 20 bilhões atualizados. O intervalo de 50 dias faz do caso Master o mais demorado desde o Banco Rural em 2013, quando os pagamentos começaram após três meses e seis dias, superando prazos de casos recentes como Banco BRJ (27 dias, 2015) e Banco Azteca do Brasil (47 dias, 2016).
Apesar da demora, não há prazo legal definido e atrasos não configuram irregularidade.
Brasília
O presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Vital do Rêgo Filho, disse que a Corte não tem competência para desfazer a liquidação extrajudicial do Banco Master, determinada pelo Banco Central.
A decisão do ministro Jhonatan de Jesus de autorizar inspeção nos documentos do Banco Central relacionados ao caso provocou reações contrárias de financeiras, diante da avaliação de que a medida poderia interferir na liquidação do banco controlado por Daniel Vorcaro.
Diante das críticas, a apuração deve ser paralisada. Rêgo confirmou que Jhonatan deve suspender a inspeção. “A decisão ainda não saiu. Estamos trabalhando sobre como executar o trabalho, preservando as garantias constitucionais”.
Segundo ele, o papel do TCU é fiscalizar a decisão do BC, mas eventual reversão da liquidação só pode ocorrer no Supremo Tribunal Federal (STF).
O Master foi colocado em regime de liquidação extrajudicial pelo BC sob a justificativa de problemas de liquidez e descumprimento de normas prudenciais. Rêgo afirmou que o TCU atuará em conjunto com a autoridade monetária para examinar o processo.
Jhonatan de Jesus deve suspender a inspeção presencial no BC, determinada para apurar os procedimentos adotados na liquidação. A suspensão deve valer ao menos durante o recesso do TCU, que segue até o fim do mês. A decisão ainda não foi publicada.
O ministro está sob pressão após autorizar a inspeção, criticada por especialistas, integrantes do governo e do BC. Há divergências internas no TCU sobre o acompanhamento do caso neste momento, sob o argumento de que a decisão da autoridade monetária é recente. Diante das críticas, Jhonatan de Jesus sinalizou que não pretende reverter a liquidação.
A controvérsia começou após o ministro solicitar informações adicionais sobre os fundamentos da decisão do BC de encerrar as atividades do banco. Na segunda, ele formalizou despacho autorizando a inspeção nas dependências da autoridade monetária.
Em seguida, o BC apresentou recurso sustentando que a autorização para inspeções deve ser tomada de forma colegiada, conforme o regimento interno do TCU, e não por decisão individual. Segundo a Autoridade Monetária, a análise caberia à Primeira Câmara do Tribunal.
Indicado por Lira e sem especialização em Economia
O ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jhonatan de Jesus, que questiona a liquidação do Banco Master, é médico de formação e não tem especialização na área econômica. Ele foi deputado federal por Roraima entre 2011 e 2023 e assumiu o cargo no TCU em março de 2023, após indicação do Congresso Nacional.
A articulação política envolveu a liderança do Republicanos e teve apoio do então presidente da Câmara, Arthur Lira. A indicação foi aprovada pela Câmara em 2023, com 239 votos favoráveis, em votação secreta. No Senado, a relatoria ficou a cargo do senador Mecias de Jesus, pai do ministro e líder do Republicanos, e a indicação obteve 72 votos favoráveis.
No despacho que motivou a controvérsia, Jhonatan afirmou que a liquidação do Banco Master pelo Banco Central, em novembro de 2025, apresenta uma cronologia sintética sem comprovação documental. Ele solicitou a reconstrução detalhada do histórico recente da instituição financeira.
O despacho também questiona como o Banco Central permitiu a expansão do banco a partir de 2019, ainda na gestão de Roberto Campos Neto.
Para apurar os procedimentos adotados, o ministro determinou inspeção no Banco Central, com foco no perfil dos investidores institucionais e na avaliação dos ativos remanescentes.
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