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DOUTOR JOÃO RESPONDE

Efeitos nocivos dos antibióticos

Entre a cura e o risco: como antibióticos e microbiota moldam a saúde humana

João Evangelista Teixeira Lima | 06/01/2026, 12:23 h | Atualizado em 06/01/2026, 12:23
Doutor João Responde

Dr. João Evangelista



          Imagem ilustrativa da imagem Efeitos nocivos dos antibióticos
João Evangelista Teixeira Lima é clínico geral e gastroenterologista |  Foto: Divulgação

Como dizia Alexander Fleming, o pai da penicilina: “O antibiótico salva, mas só o vinho faz feliz”. Existem trilhões de bactérias vivendo em nós e para elas nós somos o mundo. Debilitando o micróbio ou entorpecendo o hospedeiro, o uso de qualquer droga implica analisar seus defeitos antes de aceitar suas qualidades.

Outrora, a farmacologia servia para designar tanto uma droga que alucina, como o vinho; um remédio que cura, como a penicilina; um perfume que seduz, como o a seiva das flores; ou um veneno que mata, como o cianureto.

Aquilo que cura pode matar e aquilo que encanta pode enlouquecer e escravizar.

O metabolismo de medicamentos sempre foi atribuído ao fígado, considerado o órgão com maior capacidade metabólica do organismo. Sabe-se hoje que, antes de alcançarem o fígado, os fármacos ingeridos podem ser metabolizados pelas enzimas produzidas por bactérias do intestino.

Em alguns casos, um medicamento pode alterar a microbiota intestinal, desencadeando modificações no metabolismo do hospedeiro. Em outras situações, o fármaco afeta diretamente o metabolismo, forçando a microbiota a se adaptar a essa nova realidade bioquímica. Existem também cenários nos quais a microbiota age primeiro, metabolizando o medicamento, alterando sua ação terapêutica.

Penicilinas, cefalosporinas, macrolídeos, metronidazol, nitrofurantoína aminoglicosídeos, quinolonas, entre tantos outros antibióticos, são usados para combater infecções bacterianas, com espectros de ação e indicações diferentes. Essas formidáveis ferramentas podem auxiliar ou prejudicar, curar ou adoecer.

Amplamente utilizados no tratamento de doenças infecciosas, antibióticos salvam vidas. Apesar de sua eficácia, o uso prolongado e excessivo dessas drogas pode acarretar graves consequências.

Os antibióticos costumam causar efeitos diretos na microbiota, alterando sua composição, e efeitos indiretos, que incluem alterações no sistema imune do hospedeiro, modificações nos metabólitos bacterianos e desequilíbrio da mucosa intestinal. O tratamento com antibioticoterapia tem efeitos colaterais, caracterizado pela diminuição da abundância de comensais benéficos, levando ao aumento de microrganismos potencialmente prejudiciais e surgimento de bactérias resistentes, podendo aumentar o risco de doenças intestinais.

Situações em que antibióticos modificam a microbiota são mais compreendidos do que aquelas em que a microbiota modifica os efeitos dos antibióticos. Evidências apontam que a microbiota pode metabolizar o fármaco para a sua finalidade terapêutica, mas também pode produzir metabólitos potencialmente danosos.

Baseado nesse entendimento, estudos têm impulsionado a terapia do microbioma, buscando modular o perfil da microbiota, de forma preventiva, visando otimizar a interação entre medicamentos e microbioma, ampliando a eficácia terapêutica.

Nada é mais prejudicial à convicção própria do que uma forte influência de certezas alheias.

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