Festas de rua ganham força e viram encontro de gerações
Eventos que reúnem de crianças a idosos têm se destacado no Espírito Santo, funcionando como uma “ocupação” cultural urbana
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Era um sábado de outubro quando as amigas Letícia de Sá, 22, e Rayane Loyola, 35, voltavam de um ensaio de teatro no Palácio Anchieta, no centro de Vitória, e começaram a ouvir música vindo de um beco.
Ao seguir o som, descobriram uma festa de rua – e passariam muitos outros sábados dançando ali. Trata-se da festa Disco Voador, tipo de evento ao ar livre que vem ganhando força e unindo diferentes gerações no Espírito Santo.
A arquiteta Cátia David Ceregati observa esse crescimento. Para ela, isso dialoga com um movimento urbano maior. “Na arquitetura e no urbanismo, a gente entende que a cidade só funciona de verdade quando ela é ocupada. Espaços vazios tendem a gerar insegurança, espaços ocupados geram pertencimento”.
A cultura, explica ela, é um convite para essa ocupação. “Ela chama as pessoas para fora de casa, cria um motivo para estar na rua, para dividir o espaço com o outro. E quando isso acontece, diferentes gerações passam a conviver de forma natural: crianças brincam, adultos se encontram, idosos participam. A cidade vira um ambiente compartilhado”.
Por meio da paixão pelo vinil e pela música brasileira, é isso que tem acontecido no Beco das Pulgas, no centro de Vitória, onde a festa Disco Voador acontece uma vez por mês e tem reunido centenas de pessoas.
“Todas as gerações”, destaca Fabrício Bravim, DJ e produtor do evento. “Começa por volta das 16h e nesse momento chegam as famílias: tios, avôs, crianças. Eles circulam como se fosse uma praça interativa. Temos cerca de 30 artesãos e praça de alimentação. A partir das 19 horas chega a galera da dança”.
Segundo ele, a ocupação também trouxe mudanças para o espaço. “Tinha pilhas de lixo e um esgoto vazando havia mais de cinco anos, que está sendo resolvido agora. Festas de rua como a nossa dão visibilidade para que o poder público olhe para esses locais”.
Para Letícia, estudante de Direito e atriz, a cena cultural capixaba vive um momento de ocupação dos espaços públicos. “Desde que conheci não parei mais de ir”. No próximo dia 21, Letícia, a advogada Rayane e o artista plástico Marcos Graminha, 56, poderão aproveitar mais uma edição do evento.
Roda de samba impulsiona economia em bairro
Saindo de uma barbearia, o produtor Jean Dantas viu na pracinha em frente o local perfeito para realizar o Samba do Bentos, uma roda de samba mensal realizada na Ilha dos Bentos, em Vila Velha, que tem atraído milhares de pessoas. Em sua 12ª edição, ele conta que o evento tem beneficiado a economia do bairro, assim como os moradores. “Como a comunidade abraçou o evento, fazemos a divulgação de todos os comerciantes da redondeza de graça, colocando suas marcas em um grande telão de Led que temos. Por causa do evento, também diminuiu a movimentação de moradores de rua na praça e trouxe visibilidade ao bairro”.
Rock na Castanheiras 360º
Em Vila Velha, no estacionamento do Morro do Moreno, no Parque das Castanheiras, uma das festas de rua que acontece durante o ano é a Castanheiras 360°, com uma pegada mais rock. Dan Galvão é um dos produtores, além de morador do bairro. Ele conta que o evento já teve quatro edições.
Ao estimular o contato e incentivar interações espontâneas, festas de rua podem ajudar a melhorar a saúde emocional, destaca a psicóloga Naira Delboni.
Ela explica que isso é importante nos tempos atuais, em que é possível notar um aumento do isolamento social devido à rotina intensa e ao excesso de telas.
“A gente vive em uma rotina urbana bastante acelerada, muitas vezes individualista, podendo ser silenciosamente solitária. O cérebro humano foi feito para vínculos, afetividade e pertencimento. As festas de rua e de comunidades funcionam como um respiro, um lugar em que a vida desacelera e a gente volta para algo que é essencial à saúde emocional: o encontro”, destaca.
A especialista ressalta que elas não eliminam a solidão, mas criam brechas para a conexão. Além disso, acrescenta que o encontro de gerações permitido pelas festas de rua cria uma troca rica e natural de experiências.
“O idoso se sente valorizado, o jovem se sente incluído, e a criança aprende sobre coletividade, favorecendo vínculos saudáveis. Essa convivência intergeracional tende a diminuir o sentimento de solidão”, destaca, acrescentando que isso pode reduzir a ansiedade e aumentar a sensação de segurança dentro da comunidade.
A arquiteta Cátia David concorda sobre o aumento da sensação de segurança.
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