Petróleo: de coadjuvante a ator principal
Quem acompanha o café sabe de cor que preço de saca depende de clima, de câmbio, de estoque mundial; poucos incluem nessa conta o barril de petróleo
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
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Um produtor capixaba chega à cooperativa nesta semana para buscar adubo e recebe uma notícia que não tem nada a ver com clima, praga ou câmbio: o preço subiu de novo.
Ele pode não saber, mas dentro daquele saco de ureia mais caro está uma guerra que começou em fevereiro, do outro lado do mundo, entre Estados Unidos e Irã.
Parece esquisito colocar as duas coisas juntas. Café e conflito no Oriente Médio soam como assuntos de diferentes seções do jornal. Só que a lavoura moderna, a que produz em escala e compete no mercado internacional, é movida a petróleo em quase cada etapa.
O nitrogênio do adubo vem do gás natural, processado numa reação que carrega o nome de dois químicos alemães, Haber e Bosch, mas que na prática só serve para explicar por que fertilizante e petróleo sobem juntos.
O diesel puxa o trator na lavoura, que seca o grão no terreiro e carrega a saca até o armazém. Depois, o mesmo combustível move o navio que sai do porto de Vitória com destino a Roterdã ou Nova Iorque, num trajeto já fechado em contrato meses antes de zarpar.
Essa dependência não é recente, mas ficou mais visível nos últimos meses. O conflito entre EUA e Irã, reaceso depois de um período de calmaria, levou o petróleo Brent a mais de US$ 100 o barril, com o Estreito de Ormuz outra vez como zona de risco para o tráfego marítimo.
Quem acompanha o café sabe de cor que preço de saca depende de clima, de câmbio, de estoque mundial. Poucos incluem nessa conta o barril de petróleo, que na prática funciona como um insumo agrícola disfarçado de pauta internacional.
O efeito chega em etapas diferentes, e quase sempre silenciosas. O fertilizante encarece antes da adubação de novembro, justo na hora em que o produtor planeja o crédito da safra seguinte.
O frete marítimo, cotado com meses de antecedência, embute um risco que o exportador só sente de verdade na hora de fechar o contrato, quase sempre sem espaço para repassar a diferença ao comprador do outro lado do oceano.
E o diesel, que parece o menor dos três, é o que pesa todos os dias, sem exceção, em cada hora de tratores e máquinas rodando entre as fazendas. Vale lembrar de onde viemos. Até poucas décadas atrás, o café dependia sobretudo de mão de obra e enxada.
A química de síntese e a mecanização trouxeram produtividade e escala, e o Brasil não seria o maior produtor e exportador do mundo sem isso. Mas essa modernização também amarrou o cafeicultor a um mercado de energia que ele não escolhe, não negocia e raramente olha de perto.
Não achamos que o produtor deva se tornar analista de geopolítica. Mas quem lida com café já aprendeu a acompanhar o clima e câmbio como parte do ofício.
O petróleo devia entrar nessa mesma lista, com a mesma atenção, porque a guerra que parece distante já está precificada no saco de adubo que chega essa semana à cooperativa, e vai continuar chegando assim, guerra ou não, safra após safra.
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