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VOZ DO CAFÉ

Vai um café gelado aí?

Em Vitória, comércios que antes só vendiam cafezinho e espresso passaram a oferecer bebida gelada com leite, xarope e cobertura

Matheus e Marcus Magalhães | | Atualizado em
VOZ DO CAFÉ

Marcus e Matheus Magalhães

Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro


          Imagem ilustrativa da imagem Vai um café gelado aí?
Nos Estados Unidos, quase uma em cada cinco xícaras de café bebidas por dia já é gelada |  Foto: Canva

Seu pai tomava cafezinho coado, quente, na xícara pequena, três vezes ao dia, sem variar. Você bebe um cappuccino tradicional, numa cafeteria à tarde.

Seu filho bebe cold brew com baunilha, gelado, numa garrafa de vidro que carrega pro escritório. Entre essas cenas cabe uma família inteira. E cabe também uma mudança de mercado que está acontecendo mais rápido do que parece.

Nos Estados Unidos, quase uma em cada cinco xícaras bebidas por dia já é gelada, mesmo em pesquisa feita no inverno. O consumo de cold brew (cafés extraídos a frio, por infusão) subiu 31% em pouco mais de um ano, puxado por gente entre 18 e 35 anos.

Na China, país de tradição em chá, a rede Luckin Coffee faturou 49 bilhões de yuans em 2025, alta de 43% no ano, boa parte vinda de bebidas geladas e receitas que misturam café com frutas, leite e xarope.

A Starbucks respondeu na mesma moeda: as vendas de chá gelado por lá mais que dobraram. Aqui no Brasil o quadro é parecido, só que com uma camada a mais.

A Abic registrou alta de 2,44% no consumo entre janeiro e abril deste ano, recuperação depois de um 2025 fraco. A Conab projeta safra recorde de 66,7 milhões de sacas. O brasileiro está bebendo mais café, não menos. Só que está bebendo de um jeito diferente.

Em Vitória já dá pra ver isso na prática. Comércios que antes só vendiam cafezinho e espresso passaram a oferecer bebida gelada com leite, xarope e cobertura.

É tentador ler esse movimento como modismo de geração jovem que não aguenta café puro.

Porém, achamos essa leitura rasa e preguiçosa. O café está mudando de formato, e formato é onde a cadeia decide quem ganha dinheiro. Aí entra um detalhe técnico que interessa direto ao Espírito Santo. O conilon, que produzimos em escala aqui no Estado, tem comportamento particularmente bom em extração a frio.

A água gelada demora mais pra puxar os compostos que deixam o café amargo. Assim, a variante aparece com o corpo achocolatado que é a marca dele, sem a aspereza que incomoda quem bebe puro e quente.

E carrega quase o dobro de cafeína por xícara em comparação ao arábica, exatamente o que a indústria de bebida gelada busca quando dilui o café com leite, gelo e xarope.

Não é exagero dizer que essa onda de consumo pode virar uma janela de valorização pro conilon capixaba, desde que a indústria saiba contar essa história pro mercado certo.

O grão tratado por décadas como parente “inferior” do arábica tem, agora, um encaixe técnico que poucos estão explorando com a força necessária.

O café não vai deixar de ser bebido, só deixará de caber apenas numa única xícara. Quem entende a cadeia de perto sabe reconhecer, nessa mudança de hábito, uma oportunidade.

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