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JOSÉ ANTÔNIO MARTINUZZO

Da “inteligência coletiva” ao “século dos imbecis”

A partir de Pierre Lévy e Valter Hugo Mãe, articulista discute como o digital reconfigura a inteligência e glorifica a estupidez

José Antônio Martinuzzo | | Atualizado em
José Antônio Martinuzzo

Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes

José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.


          Imagem ilustrativa da imagem Da “inteligência coletiva” ao “século dos imbecis”
José Antônio Martinuzzo. |  Foto: Divulgação

O novo milênio apresentou aos terráqueos uma nova dimensão existencial. Além daquela sensível, feita de matéria palpável, passamos a contar com uma ambiência digital para exercitar nossos sentidos, ou seja, viver.

Quando esse novo espaço vital começou a se constituir, na virada do milênio, o pensador franco-tunisiano Pierre Lévy previu que estávamos a caminho da constituição de uma “inteligência coletiva”, rumo “ao desenvolvimento de uma inteligência global da humanidade”.

Páginas e mais páginas após essa escrita alvissareira, smartphones, redes sociais e inteligências artificiais depois, o que se constata é o que o escritor português Valter Hugo Mãe descreve como “o século dos imbecis”, título de seu mais novo livro.

Ou seja, essa nova fronteira existencial, que já sombreia o modus vivendi analógico há tempos, tem-nos feito um convite ao retrocesso humanístico, contrariando sua promessa original de evolução sem igual.

O romance de Hugo Mãe traz o personagem Agilulfo, marquês residente num palacete localizado num ponto mediano de uma montanha. Ao subir a colina, ele se torna sábio e atraente. Ao descê-la, piora ainda mais a sua condição ordinária de “nublado, silente e sem iniciativa”. Aqui o convite é à leitura, mas, sem spoiler, se pode dizer que a insistência pela descida do marquês ao vale da estultice era uma espécie de “esporte” entre os súditos.

“Que humanidade era aquela que preferia promover a ignorância ao contrário de promover a erudição (...). Valeria tanto o riso que melhor fosse do que a pura revelação do conhecimento. Seria isso. Se todos poderiam convidar Agilulfo a subir, porque sempre haveriam de o convidar a descer”, observa o narrador.

Nas entrevistas que tem dado pela ocasião do lançamento do livro, Hugo Mãe afirma que Agilulfo alude ao smartphone, instrumento que pode nos elevar ou nos embrutecer. Numa evidência de que estamos ladeira abaixo, espanta-se com a glorificação da estupidez. Pondera que ignorância sempre haverá, mas a novidade é que estamos abrindo mão de superá-la. Causam-lhe perplexidade o orgulho e a ousadia dos ignorantes contentes de sua condição.

Pico della Mirandola, no magistral Discurso sobre a Dignidade Humana, de 1486, também se refere a deslocamentos verticais para falar das possibilidades existenciais. Num fictício diálogo entre Deus e Adão, o Criador explica: “A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo seu arbítrio, a cujo poder te entreguei. (...) Poderás degenerar até os seres que são bestas, poderás regenerar-te até às alturas superiores, que são divinas, por decisão de teu ânimo”.

Não pude perceber no livro e nas entrevistas do autor, um diálogo direto entre Valter Hugo Mãe e Pico della Mirandola, mas a atualidade os põe em conversa, sinalizando que o livre-arbítrio, em tempos de inaudita oportunidade técnico-informacional de autonomização humana, na realidade tem sido usado para um mergulho nas trevas da bestialidade. Diante de uma potencial “inteligência coletiva”, estamos mesmo é erguendo o império da imbecilidade.

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José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.

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Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes

José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.

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