A era dos afetos aos extremos
Redes sociais e excesso de estímulos podem deixar as emoções mais intensas e aumentar o cansaço mental
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
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Excitação/letargia. Euforia/calmaria. Entusiasmo/apatia. A vida parece navegar o mar dos dias sob ventania de extremos afetivos. Ou, se preferirmos, numa montanha-russa de afetos contraditórios, da animação total ao cansaço radical.
Experimentar emoções diversas, sensações agridoces, é condição inarredável do existir. Mas deslocar-se intempestivamente entre oposições tão contrastantes, com nosso estado d’alma se transtornando vertiginosamente, é novidade histórica.
Tal fenômeno se pode entender como derivação de um fato inaudito ainda mais determinante. Trata-se da constituição de uma segunda ambiência para exercitarmos o viver, a dimensão da digitalidade.
Pela primeira vez na trajetória humana, temos um contexto bidimensional (presencial/geográfico e digital/informacional) para experimentar sentidos, experienciar afetos e efetivar capacidades cognitivas.
Ocorre que a paisagem digital vem suplantando a vivência analógica em relevância socioeconômica e político-cultural. Assim, reforçam-se em nossas vidas as marcas da digitalidade, especialmente o instantaneísmo, a hiperatualização e as excitações multimidiáticas.
Nessa toada, viver está se tornando algo estruturalmente ansiogênico, uma alucinação em busca incessante de sensações, cadenciada pela duração do instante e alimentada pela demanda insaciável de novidades.
Com os altos e baixos próprios da experiência adicta, temos um cotidiano ritmado por uma gangorra emocional, sob a lógica das redes.
Nesse turbilhão de emoções, viajamos de um extremo a outro da escala afetiva numa velocidade inclemente e numa metamorfose anímica intermitente, cadenciados por intervalos de ânimo e desânimo, tamanho o esgotamento mental.
Mas tudo pode piorar. Como Freud observou, nascemos prematuros, temos consciência de nossas fragilidades e solidão na travessia da vida rumo à morte inevitável, numa caminhada em ambiente hostil e em companhia tão ou mais agressiva que nós.
Numa realidade “líquida” e emocionalmente extenuante, essa sensação de desproteção só se intensifica. Não sem razão, temos incremento de adoecimento mental, de busca por alívio medicamentoso, e de fixação em “anestesias” viciantes (jogos, drogas etc.), entre outros.
Além das ansiedades, melancolias e depressões, impõem-se suas variantes contemporâneas, turbinadas pela digitalidade. Temos o burnout, com estresse, exaustão e desmotivação crônicos. O borderline, a própria feição da vida sob tempestade de afetos, e sua instabilidade emocional, impulsividade e intensificada sensação de desamparo. Além da bipolaridade, entre euforia e tristeza, outra condição que bem traduz a atualidade.
Vivendo numa inédita e desafiante realidade bidimensional, parece mesmo que somos convidados a inventar uma terceira ambiência. Uma dimensão existencial autoral à prova de extremos de temporalidade e excitações, que respeite nossos limites afetivos e cognitivos. Afinal, se um mundo particular sempre foi demanda de almas mais sensíveis, neste tempo em vertigem, transformou-se em solução para geral. Mãos à obra, pois.
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