Árdua vida, perigosas panaceias
Entre dor e delícia de existir, dados da ONU e ideias de Freud iluminam a busca por alívio e sentido em tempos fatigantes
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
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A dádiva do existir não está livre das dores da existência. Viver é uma delícia, mas suportar os constrangimentos do corpo e da alma pode fazer dos dias sob o Sol uma jornada de atropelos e quedas e altos e baixos sem fim.
Muitas vezes, certos modos de se enfrentar as amarguras da nossa condição podem se revelar uma armadilha, imputando até mesmo novos dramas a quem não tem forças ou coragem para encarar o bafo dolorífico inerente ao sopro da vida.
Recente reportagem deste jornal traz o alerta da Organização das Nações Unidas sobre o aumento do uso de drogas sintéticas ao redor do planeta. Entre 2014 e 2024, houve um aumento de 5,2% no uso de substâncias psicoativas, tendo sido desenvolvidas 400 novas drogas no período, algumas com grande risco de levar à morte.
Para Freud, “a vida, tal como a encontramos, é árdua demais; proporciona-nos muitos sofrimentos, decepções e tarefas impossíveis”. Isso porque habitamos um corpo que envelhece, adoece e morre; vivemos em meio ambiente natural incontrolável e, por vezes, mortalmente hostil; e, ainda por cima, lidamos, como espécie, com as ameaças da nossa agressividade estrutural.
Mesmo diante da impossibilidade de se constituir uma vida sempre feliz, Freud afirma que os humanos “esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer”.
Buscamos, “por um lado, uma ausência de sofrimento e de desprazer; por outro, a experiência de intensos sentimentos de prazer”.
Nessa empreitada, Freud lista as “soluções” mais comuns: “derivativos poderosos (como as atividades científicas/intelectuais), que nos fazem extrair luz de nossa desgraça; satisfações substitutivas (como as artes), que a diminuem; e substâncias tóxicas (drogas), que nos tornam insensíveis a ela”.
Afirmando que não existe uma regra de ouro que valha para todos e que há riscos que invalidam algumas alternativas, Freud aponta que nem mesmo a religião “consegue manter sua promessa”, uma vez que submete os fiéis a “desígnios inescrutáveis” dos sistemas de fé.
O alarmante incremento do uso de substâncias tóxicas evidencia que viver tem se tornado uma tarefa cada vez mais fatigante. As inúmeras revoluções tecnológicas não nos têm aliviado das dores do existir. Pelo contrário, só têm tornado mais insuportável viver e conviver.
Há um traço terrível e enigmático numa sociabilidade que avança nas capacidades materiais de produção de bem-estar, mas retrocede nas possibilidades de estar bem.
Talvez seja efeito colateral de um modelo de desenvolvimento descentrado do humano e de suas marcas subjetivas e intersubjetivas. Talvez seja uma cultura de oferta de panaceias à condição humana, mas que só a piora quando promete que há possibilidade de viver sem reveses e dores e impedimentos e impossibilidades.
A conquista de algum bem-estar não reside na negação das complexidades de nossa condição, mas no seu enfrentamento lúcido e na invenção de uma existência que, sabendo-se limitada e desafiante, tenha sentido para além dos mal-estares do existir.
Como cantou Caetano, dor e delícia fazem parte do que se é. Melhor não tentar se iludir – até porque tudo pode ficar pior.
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