Sociabilidade perversa e brasilidade
Uma leitura sobre a coincidência de condições nefastas e a aversão a limites que atravessa a sociabilidade no país
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
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“Tempestade perfeita”. A expressão indica coincidência de circunstâncias ruins que culmina em situações catastróficas. É assim que podemos dizer que estamos experimentando um tempo de trágica combinação de condições nefastas: a constituição de um paradigma de sociabilidade perversa na contingência, entre nós, de um país que desde sempre flertou com o deslimite – dos desmandos nas altas esferas da República aos desvios da farra das bikes elétricas, como hoje se vê.
A sociabilidade perversa refere-se a um tempo em que todo limite parece abusivo. Dany-Robert Dufour fala de um universo demarcado por uma perversão de segunda ordem, não aquela que subverte a lei, estabelecendo com esta uma relação, mas aquela que rompe com a lei, dando lugar ao império do sem-limite – se há lei, esta é a lei do excesso.
Aqui é que se encontram atualidade psicopática e uma brasilidade estruturalmente atravessada pela aversão a limitações e convenções.
O psicanalista italiano Contardo Calligaris, que passou boa parte de sua vida por aqui, escreveu uma “psicanálise da estranha civilização brasileira”, o livro “Hello, Brasil!”.
Por meio de duas figuras “retóricas” ou “teatrais”, “o colonizador e o colono”, elabora um ponto de vista intrigante que pode somar a um olhar mais atento sobre o modus vivendi nacional.
O “colonizador” chega ao novo mundo para se apossar do que já tinha dono, “gozar” do deslimite vário, como a exploração extrativista e a escravização.
A “Terra de Santa Cruz” era para ser uma espécie de terra sem lei, ou de uma lei-chancela do abuso, ou de indiferença à Lei.
Os “colonos”, aqui imigrantes, vieram para construir uma cidadania, num horizonte de “ordem e progresso”.
Não vieram para apagar uma história, uma língua, mas para escrever uma outra história, inclusive numa língua estrangeira. E isso não se faz ao largo das contenções civilizatórias, como aquelas que baseiam a ideia de nação democrático-republicana e humanística.
Calligaris não pretende dividir o povo brasileiro entre “colonizadores” e “colonos”, mas deseja salientar que “no discurso de cada brasileiro (...) parecem falar o colonizador e o colono”. “Tudo isso parece produzir duas exortações, ‘Goza, Brasil’ e ‘Muda, Brasil’, que curiosamente talvez se anulem”, suspeita.
A saída desse lugar de forças contraditórias que nos mantêm numa precariedade civilizacional é indicada pelo psicanalista: “O essencial não é inventar consertos (a neurose é a ciência dos consertos e das ocultações subsequentes que não dão certo). O essencial é indicar um real contraditório, que não tem conserto, para fazer com isso, com o inevitável, algo interessante”.
Se essa operação de reconstituição sem negação do que nos constituímos sempre foi desafiante, imagine nestes tempos de tempestade perfeita, de coincidência com os ditames da sociabilidade perversa, que tendem a acentuar a voz e o ato do “colonizador” em nós?
Por ora, seguimos pisando fundo no acelerador do “vai que cola”, do “jeitinho brasileiro”, do “deixa a vida me levar...”, da lógica do tempo das capitanias hereditárias, afinal, para nossa tragédia, “Deus é brasileiro” – ainda.
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