Devagar com o andor
Estrategistas da ultradireita miram hegemonia ao desmontar organismos e priorizar petróleo, mas efeitos favorecem renováveis e China
José Vicente de Sá Pimentel
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Na teoria, Washington tem um norte. Estrategistas da ultradireita avaliaram que o multilateralismo corroeu a hegemonia americana, e para restaurá-la deram a receita: desmobilizar organismos internacionais dispendiosos e difíceis de manipular, como ONU e Otan; garantir o controle do mercado de energia, a preponderância do dólar e, com seu poderio militar, ser o terço mais rico de um mundo dividido em esferas de influência com a China e talvez a Rússia.
Donald Trump, com sua ascendência sobre os Republicanos e a fidelidade de um terço do eleitorado, seria o ponta de lança da estratégia. Na prática, os resultados estão aquém das expectativas e põem em marcha tendências que contradizem os interesses dos EUA no mundo. São tendências, não certezas, porém difíceis de reverter.
A mais bem-vinda é a aceleração da transição do petróleo para as fontes renováveis. Melhoramentos na tecnologia tornaram as baterias mais eficientes e baratas. Investimentos em energia renovável têm hoje retorno mais rápido e seguro do que em combustível fóssil.
Por sua vez, a guerra tornou o Oriente Médio ainda menos previsível. O Irã aprendeu a intervir no Estreito de Ormuz, as tensões aumentaram entre os árabes, atritos com a Arábia Saudita fizeram os Emirados retiraram-se da OPEP. Um enfraquecimento da organização aumentaria, a um tempo, a volatilidade do mercado de petróleo e os atrativos da energia limpa.
A médio prazo, os chineses estão posicionados para se beneficiar da transição. Foram os que mais investiram em energia renovável, a tal ponto que os atuais componentes das usinas eólicas são todos “made in China”. Quanto mais vendem, maior a influência chinesa no mercado mundial de energia renovável.
Um mercado que Trump esnobou solenemente. A política do “drill, baby, drill”, que chega a conceder incentivos financeiros às empresas que se desfazem de usinas eólicas, desmontou projetos promissores e freou a demanda dos consumidores americanos por energia limpa.
Os desentendimentos entre o governo dos EUA e a Europa se aprofundaram, pois os americanos não metabolizaram até hoje a negativa europeia ao uso de bases militares e espaço aéreo durante o conflito. Pedro Sanchez negou inteiramente, Macron e Starmer ofereceram apoio limitado e exigiram, em contrapartida, que os americanos marcassem o fim dos bombardeios. Trump ameaçou-os com embargos e cortes nas relações comerciais. Caso materialize a ameaça, empurrará os europeus para mais perto da China.
A polêmica de Trump com a ex-amiga Giorgia Meloni é uma aula sobre como transformar simpatia em desamor. A Primeira-Ministra juntou-se aos demais europeus e impediu que os EUA tivessem acesso às bases militares em solo italiano.
Trump vingou-se, alardeando, numa entrevista de imprensa durante a reunião do G-7, que a Primeira-Ministra da Itália teria implorado por uma foto com ele. Meloni prontamente desmentiu e pontuou com ironia, para os seus 7 milhões de seguidores no X, que o presidente dos EUA briga com os aliados e amarela diante dos inimigos do Ocidente.
À medida que as eleições de novembro se aproximam e a inflação continua em alta, a popularidade de Trump despenca e estimula fissuras no Partido Republicano. Consternado com o andar da carruagem, Trump busca consolo nas eleições de Keiko Fujimori no Peru e Abelardo de la Espriella na Colômbia. Brandindo o corolário Trump da doutrina Monroe, divulga previsões de vitória da ultradireita também no Brasil.
Devagar com o andor. Esforços trumpistas para influenciar a campanha presidencial brasileira são até previsíveis, mas o Brasil é diferente dos vizinhos sul-americanos.
O mais plausível é que uma interferência americana tenha aqui o mesmo resultado das tentativas frustradas no Canadá e na Hungria. O risco é que a parceria bilateral azede e atire de uma vez o Brasil nos braços da China. Trump não quer parceiros, quer súditos. Quem tem dignidade é compelido a procurar uma alternativa.
Segundo Gianni Infantino, Trump deverá comparecer à final da Copa do Mundo para entregar a taça ao campeão. Os favoritos para levar o título são França, Espanha, Argentina e, sem dúvida, o Brasil. Desses, o único com quem os Estados Unidos mantêm atualmente um relacionamento de amizade, ou subserviência, é a Argentina. Mais uma razão para torcer contra os hermanos.
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