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OPINIÃO INTERNACIONAL

Anatomia de um fiasco

Análise aborda os impactos políticos, econômicos e diplomáticos de um conflito que terminou sem alcançar seus principais objetivos declarados

José Vicente de Sá Pimentel | 22/06/2026, 13:15 h | Atualizado em 22/06/2026, 13:15
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel


          Imagem ilustrativa da imagem Anatomia de um fiasco
José Vicente de Sá Pimentel, nascido em Vitória, é embaixador aposentado |  Foto: Divulgação

Foi um fiasco maior até do que eu pensei. A autossuficiência, a soberba e o descuido com geografia e história levaram Trump a se meter numa enrascada que, se fosse razoável, teria evitado.

Em 2002, Bush rotulou Irã, Iraque e Coreia do Norte de "eixo do terror". Os três seriam adeptos do terrorismo internacional e produtores de armas de destruição em massa. Depois do 11 de setembro de 2001, a mensagem tinha forte apelo popular.

No entanto, Bush não atacou o Irã. Avaliou que a cultura milenar, o terreno montanhoso, a posição estratégica, a população de 90 milhões e a simbiose entre as lideranças política, religiosa e militar tornavam o país um osso duríssimo de roer.

Limitou-se a impor sanções, que machucaram a economia e o povo, mas não interromperam o programa nuclear iraniano.

Obama decidiu levar o problema para a esfera diplomática, convencido de que a força bruta não resolve o dilema, o Irã é importante demais para ser negligenciado e dispendioso demais para ser invadido.

Dois anos de ásperas tratativas acabaram produzindo o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês), cujo objetivo era impor limites e submeter o programa nuclear a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica.

Trump tem um problema antigo com Obama. Insegurança, despeito e racismo têm muito a ver com isso, além de oportunismo político, visto que o presidente negro é até hoje rejeitado pela maioria dos trumpistas brancos. Em 2018, os EUA se retiraram do JCPOA.

Em vez de diplomacia, a Casa Branca usou seu poder para impor novas e pesadas sanções às exportações de petróleo e ao sistema bancário iraniano.

Não deu certo. Sem o mecanismo de compliance, os iranianos aumentaram o ritmo do enriquecimento do urânio.

Em junho do ano passado, Trump bombardeou o país e alardeou que havia "obliterado as instalações do programa nuclear". De novo, não deu certo.

Em janeiro, houve protestos populares no interior do Irã, inclusive com queima de imagens dos líderes religiosos.

O governo reprimiu implacavelmente as manifestações. Netanyahu viu naquilo uma janela de oportunidade e convenceu Trump de que poderia eliminar Khamenei com um raid aéreo. Ato contínuo, o povo iria para as ruas e mudaria o regime.

Em 28 de fevereiro, o ataque israelo-americano começou. Khamenei foi morto e, nesse mesmo dia, uma escola para meninas foi destruída.

Prenunciava-se a barbárie em que outros cinco mil alvos seriam atingidos, ao longo de quatro meses de um bombardeio tão intenso que drenou o arsenal bélico americano e determinou a realocação de materiais estratégicos de bases na Ásia.

O Irã, porém, não se rendeu. Reagiu atacando países árabes simpáticos aos americanos e fechando o estreito de Ormuz, por onde passa um quinto da oferta global de petróleo.

As repercussões econômicas e o choque inflacionário nos EUA derivado do aumento do preço dos combustíveis, acoplados à pressão política das eleições de novembro enfim convenceram Trump a suspender os ataques e apelar para a diplomacia.

O memorando de entendimento assinado digitalmente na última quarta-feira joga no lixo todos os argumentos fornecidos por Trump para começar a guerra. A teocracia islâmica permanece no poder, sob a chefia do filho de Khamenei.

O programa nuclear não é interrompido, apenas será objeto de negociações ao longo dos próximos 60 dias, que podem se tornar 120 ou mais, a julgar pelo antecedente do governo Obama.

Caem as restrições às exportações iranianas de petróleo e um plano de reconstrução do país será financiado por um fundo de 300 bilhões de dólares, os quais, segundo Trump, não sairão dos cofres públicos americanos. Falta saber se as empresas que se beneficiarão do plano serão escolhidas por ele, que fez fortuna, como se sabe, no ramo imobiliário.

Os EUA já começaram a desmobilizar o bloqueio naval de Ormuz. A contrapartida iraniana é fazer o mesmo. Só que tem um probleminha; aliás, dois. O Irã utiliza vários tipos de minas navais.

Algumas repousam no leito marinho e são difíceis de neutralizar. Ou seja, a passagem pelo estreito vai continuar complicada por mais algum tempo.

O segundo problema é que Israel não gostou do entendimento, não assinou o memo e não quer parar os ataques ao Líbano, cláusula exigida pelo Irã.

As relações entre Washington e Telavive estão tensas, pois Trump recusa-se a validar o meme em que aparece dizendo: eu sou o maior presidente, o mais poderoso, e faço tudo que Netanyahu mandar.

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