A falta que faz um bom secretário de Estado
De Quincy Adams a Kissinger, texto analisa “good guys” e “bad guy” da diplomacia americana e seus efeitos no relacionamento bilateral
José Vicente de Sá Pimentel
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Personagens de grande envergadura chefiaram a diplomacia dos Estados Unidos e deram, para o bem e para o mal, contribuição positiva em momentos cruciais da história. Aqueles que foram bem-sucedidos têm em comum o traço de se identificarem com a atuação dos chefes de Estado para os quais trabalharam.
John Quincy Adams formulou a doutrina que fez questão de batizar com o nome do presidente James Monroe. Era 1823 e a jovem nação americana dava o seu canto de galo no terreiro internacional, manifestando a ambição geopolítica de afastar as potências europeias da América Latina. Nossos vizinhos regionais ficaram com um pé atrás, desconfiados de que a doutrina subentendia a dominação do continente.
O Barão do Rio Branco, porém, considerou que a parceria com os Estados Unidos nos traria um apoio oportuno em pendências com o colonialismo europeu ou em questões fronteiriças. Com isso em vista, bancou a abertura da embaixada na capital americana, iniciativa que, na análise desenvolvida por Rubens Ricupero em “A diplomacia na construção do Brasil”, transferiu o eixo diplomático brasileiro de Londres para Washington.
Dean Acheson entrou no governo Harry Truman quatro anos depois das explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Notabilizou-se pela implementação do Plano Marshall, a consolidação da Otan e a política de “contenção” da União Soviética.
Foi o primeiro secretário de Estado a visitar o Brasil, onde teve recepção festiva de Getúlio Vargas e presidiu a delegação americana na inauguração da Comissão Mista para o Desenvolvimento Econômico, cujo objetivo era delinear um programa de investimentos americanos e garantir nosso alinhamento aos EUA na guerra fria que se iniciava.
O fim da guerra fria é creditado a Ronald Reagan. Uma leitura mais atenta da história daria, porém, proeminência ao seu secretário de Estado, George Schultz. Foi ele que convenceu Mikhail Gorbatchev a assinar o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, passo essencial para o fim da corrida armamentista e para a desintegração da URSS.
Schultz teve participação ativa no resgate da dívida externa do Brasil, em 1982. Um ano depois, visitou Brasília e alavancou os comitês de cooperação bilateral encarregados de negociar as restrições ao comércio e os encargos da dívida externa brasileira.
Antes de morrer em 2021, aos 100 anos de idade, interessou-se pelos desafios impostos pela mudança climática e empenhou seu prestígio na vã tentativa de convencer Trump a não abandonar o Acordo de Paris.
Quincy Adams, Acheson e Schultz são geralmente enquadrados entre os “good guys” da história diplomática americana. O “bad guy” é John Foster Dulles. Grande defensor do “excepcionalismo americano”, que dava aos EUA o “direito” de expandir sua influência, Dulles elevou à enésima potência o anticomunismo de Dwight Eisenhower.
Instigou golpes de estado no Irã e na Guatemala; boicotou o acordo entre a França e o Viet Mihn que punha fim à guerra da Indochina, assim pavimentando o caminho para a guerra do Vietnã; rejeitou o movimento dos não-alinhados, que para ele seriam aliados aos comunistas. Tornou-se, em suma, a cara da guerra fria.
Em 1958, visitou o Brasil e não deu bola para a Operação Pan-Americana proposta por Juscelino Kubistchek. Limitou-se a promover acordos militares para combater o comunismo. A visita nada rendeu, além de protestos da UNE e o militarização do relacionamento, que levará ao golpe de 1964, mancha indelével no relacionamento bilateral.
O mais famoso dos secretários de Estado há de ser Henry Kissinger. Celebrado pelo senso de humor, caçoado pelo característico sotaque alemão, reconhecido pelo brilho como estrategista ou odiado por sua impiedosa realpolitik, admirado pela détente com a URSS e a aproximação com a China, sua trajetória não cabe apenas numa crônica.
Vale, contudo, registrar sua convicção de que, “nas tratativas com o Brasil, os EUA precisam demonstrar mais sensibilidade para a dignidade de uma sociedade às vésperas de se transformar numa grande potência, e que não faz sentido uma competição por preeminência entre os dois países, nem uma divisão do hemisfério ocidental em grupos rivais”.
Na anarcodiplomacia de Trump, esses conceitos não vêm tendo a acolhida que merecem. Marco Rubio não tem o estofo para ser um secretário de Estado razoável; falta-lhe pragmatismo para identificar os reais interesses nacionais.
Por outro lado, sobra-lhe ambição e oportunismo para abandonar o barco, em caso de fiasco Republicano nas eleições de novembro. Nesse caso, é possível que o bom senso volte a imperar nas relações dos EUA com o Brasil.
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