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OPINIÃO INTERNACIONAL

Há visitas e visitas

A aproximação entre China e Rússia reforça o protagonismo global de Xi Jinping em meio às disputas geopolíticas com os Estados Unidos

José Vicente de Sá Pimentel | 25/05/2026, 12:57 h | Atualizado em 25/05/2026, 12:57
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel


          Imagem ilustrativa da imagem Há visitas e visitas
José Vicente de Sá Pimentel. |  Foto: Divulgação

Não mais do que quatro dias após a partida de Trump, Putin aterrissava em Pequim. Era a sua vigésima quinta visita oficial à China desde o ano 2000, quando se elegeu presidente da Rússia pela primeira vez. Por seu turno, Xi Jinping fez 11 visitas a Moscou, desde que assumiu a presidência chinesa em 2013.

O cerimonial chinês foi mais uma vez caprichado, refletindo a importância conferida ao visitante. Desde 2001, quando os dois países assinaram o “tratado de boa vizinhança e cooperação amigável”, os 4.300 km da fronteira deixaram de ser uma fonte de problemas históricos e se converteram no marco de uma parceria pragmática e singular.

O comércio bilateral atingiu 228 bilhões de dólares em 2025. As cifras elevadas não escondem, porém, a dependência econômica da Rússia. Anos de sanções ocidentais empurraram-na para a órbita chinesa. Hoje, a China tornou-se o principal parceiro comercial russo, enquanto a Rússia é o destino de apenas 4% das exportações chinesas. A Rússia fornece, basicamente, petróleo e gás natural e a China exporta produtos manufaturados, eletrônicos e automóveis, além de armamentos. Desde a invasão da Ucrânia, mais de 90% dos equipamentos e componentes tecnológicos de guerra russos são importados da China.

A China e a Rússia descrevem sua relação como uma “amizade sem limites”. Até quando ela vai durar, não se sabe. Parte dos analistas americanos esperava que, na sua visita de 14 e 15 do corrente, Trump pudesse afastar a China da Rússia. Não foi o que aconteceu. Pelo contrário, a visita enviou aos EUA alertas bem incisivos.

Putin começou o seu discurso no jantar de gala do dia 19 chamando Xi de “meu caro amigo” e afirmando estar “feliz de reencontrar você e manter contato permanente, pessoal e por meio de nossos governos”. Em sua resposta, Xi referiu-se a Putin como “meu bom e velho amigo”. Ambos advogaram o fortalecimento do multilateralismo, e Xi sublinhou seu comprometimento com “um novo tipo de relações internacionais, sem tendências neocoloniais negativas, sem hegemonismo nem confrontações entre blocos”.

Quanto à situação ucraniana, os dois concordaram em “enfrentar as causas profundas” da crise, demonstração clara de que a China apoia a oposição da Rússia à tentativa europeia de integrar a Ucrânia à UE, e continuará a prestar assistência militar aos russos.

No entanto, não consta da longa lista de acordos bilaterais, publicada no site do Kremlin ao final da visita, nenhuma menção ao novo gasoduto “Poder da Sibéria 2”, capaz de transportar 50 bilhões de metros cúbicos de gás russo para a China, através do Ártico e da Mongólia. Este projeto, capaz de reanimar a debilitada economia russa, parece que vai ter de aguardar uma avaliação chinesa mais detida quanto à sua conveniência ecológica e oportunidade política.

Como comentamos na coluna de domingo passado, Trump tampouco realizou todos os objetivos da sua visita. Não obteve a ajuda chinesa para reabrir o Estreito de Ormuz; negociou somente 200 dos 500 aviões da Boeing que pretendia vender aos chineses, e não está claro se viabilizou a venda de microchips de inteligência artificial da Nvidia, dada a determinação chinesa de desenvolver a sua própria indústria de semicondutores. Por outro lado, saiu devidamente advertido de que a multibilionária venda de armamentos a Taiwan poderia precipitar uma “armadilha de Tucídides”, danosa para as duas partes.

O timing das duas visitas deixa claro que o presidente chinês ocupa, nos dias que correm, o centro das atenções internacionais. Todos querem conversar com Xi Jinping, que recebe os visitantes com pompa e circunstância, sem afastar-se um milímetro do interesse da China.

Quem melhor definiu a essência das visitas de maio foi o caricaturista búlgaro Tchatvar. No centro da charge, Xi Jinping aparece de batina no confessionário, com um sorriso maroto. Enquanto Trump se afasta amuado e Putin se aproxima do genuflexório, Xi comanda: “Próximo!”.

Este é o terceiro domingo seguido que esta coluna dedica a Visitas de Estado. Estas se distinguem das visitas de trabalho pelo refinamento do protocolo, solenidade dos discursos e amplitude dos temas tratados. Surgiu ultimamente outro tipo de visitas em que políticos em véspera de eleição acertam encontro com o chefe de Estado de um país importante e oferecem facilidades em troca de um endosso. Essas visitas, que poderiam ser denominadas de vassalagem, não têm guarida em nenhuma diplomacia séria.

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