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OPINIÃO INTERNACIONAL

O inferno astral de Donald Trump

Presidente enfrenta críticas por atos simbólicos, desgaste econômico e uma escalada no Oriente Médio que pressiona combustíveis e custo de vida

José Vicente de Sá Pimentel | 15/06/2026, 13:15 h | Atualizado em 15/06/2026, 13:15
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel


          Imagem ilustrativa da imagem O inferno astral de Donald Trump
José Vicente de Sá Pimentel. |  Foto: Divulgação

Hoje Donald Trump faz 80 anos, mas é pouco provável que o seu inferno astral acabe tão cedo. Inventou de iniciar as comemorações dos 250 anos da independência americana com um grande show, no dia do seu próprio aniversário. Os artistas recusaram o convite. Diante disso, encarregou a UFC de organizar uma rodada de lutas no jardim no gramado sul da Casa Branca. Pegou mal: pesquisas constataram que apenas 16% dos americanos aprovaram essa mistura de marketing político e narcisismo.

A dessacralização dos símbolos nacionais está sendo crescentemente contestada pela Justiça. Autonomeado presidente do Conselho Diretor da instituição, Trump se deu a pachorra de rebatizar o Kennedy Center com o seu nome primeiro. Um juiz federal sentenciou que só o Congresso poderia fazer isso e ordenou que as letras na fachada do Centro fossem retiradas.

Toma corpo a reação popular aos excessos trumpistas. O índice de aprovação do governo caiu para 35%, baixíssimo para os padrões americanos. A inflação é o fator central do mau humor: 88% dos entrevistados reclamam do custo de vida. A inflação está vinculada ao aumento dos combustíveis, por sua vez consequência da guerra no Irã.

Algumas características dessa guerra precisam ser realçadas. A primeira é o escanteamento das organizações multilaterais. Há intervenções de António Guterres no Conselho de Segurança que fazem lembrar de um outro português, Fernando Pessoa, para quem “não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram”.

É certo que o poder de veto garantiria sempre a prevalência das vontades dos EUA, como na guerra do Iraque, por exemplo. Contudo, fico nostálgico ao lembrar os debates na ONU que sugeriam a possibilidade de, um dia, a inteligência, a civilização e a diplomacia superarem a lei do mais forte.

A “Estratégia de Segurança Nacional” trumpista considera que o multilateralismo potencializou os efeitos da globalização e prejudicou os interesses dos EUA. Não há dúvida de que, como observou Gelson Fonseca Jr em “A legitimidade e outras relações internacionais”, as relações multilaterais se apoiam na aceitação de um “regime de constrangimentos” que impõe rédeas ao Estado mais poderoso.

Este se beneficia, porém, com o reconhecimento da legitimidade de suas ações. Ora, ao iniciar os bombardeios contra o Irã em 28 de fevereiro, Trump não tinha sequer a aprovação do Congresso. Ou seja, não tinha legitimidade nem mesmo perante a lei americana.

Nadia Schadlow, cientista política que se diz “conservadora realista”, justifica as iniciativas de Trump com o argumento de que “ele vê o mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse”. O poderio militar seria invocado em nome da “proteção dos interesses nacionais”, que viria antes das conveniências da comunidade internacional.

Diante disso, caberia perguntar qual é o verdadeiro interesse americano. Projetar força destrutiva será mais eficaz do que liderar uma coalizão de países em defesa de uma ordem mundial mais estável? E será realista começar uma guerra sem a mínima ideia de como terminá-la?

As ações de Trump parecem derivar de impulsividade e não de realismo. Nos últimos dias, ameaçou atacar o Irã depois de um helicóptero americano ser abatido por míssil que os iranianos afirmam não ter disparado. Na quinta-feira, abortou o ataque massivo e anunciou que um cessar-fogo estaria praticamente negociado, embora não nos termos divulgados pelos iranianos.

Alguém fez as contas e concluiu que este foi o trigésimo-segundo cessar-fogo anunciado por Trump. Intrigados, congressistas Democratas investigam se os movimentos na Bolsa decorrentes dessas idas e vindas foram proveitosos para a família do presidente.

Por sua vez, Netanyahu continua bombardeando o Líbano, esgarçando ainda mais as relações com os vizinhos e também com os EUA, dados os riscos de que tais ataques inviabilizem o cessar-fogo. O Oriente Médio vive, enfim, uma guerra cada vez mais complicada, com múltiplos combatentes, cada um com sua agenda e nenhum com credibilidade.

Nesta semana, O G-7 deverá se ocupar das consequências desse imbroglio sobre a economia mundial. Talvez se organize uma missão para negociar o desbloqueio do Estreito de Ormuz.

Caso seja bem-sucedida, a missão ilustrará as limitações de Trump para resolver os absurdos que inicia. Caso não seja e o conflito escalar, os Democratas podem dar uma lavada em novembro e iniciar um processo de impeachment. Inferno astral na veia.

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