A visita de Trump à China
Declarações divergentes de Trump e Xi Jinping expõem tensão sobre Taiwan, comércio e disputa estratégica entre as potências
José Vicente de Sá Pimentel
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A visita do presidente dos EUA à China, de 13 a 15 de maio corrente, deixou mais perguntas do que respostas. O que não deixa de ser normal, tendo em conta a evolução recente dos dois países, a natureza competitiva do relacionamento e as personalidades de Trump e Xi Jinping.
Há discrepâncias até sobre o que foi de fato discutido pelos dois. Trump alardeou, com a costumeira enxurrada de advérbios e hipérboles, que a visita foi incrível, o caminho para o fim da guerra no Irã está decididamente aberto, fantásticos negócios foram feitos e agora ele e Xi Jinping são realmente amigos.
O chinês foi cirúrgico em seus comentários. Não fez menção ao Irã, não confirmou a compra de produtos americanos e pôs toda a ênfase no que seria uma “nova relação bilateral” de “estabilidade estratégica construtiva”. Não explicou o que isso vem a ser, mas sugeriu que os EUA têm de aceitar a China como potência de igual valor, admitindo como natural a competição entre os dois, desde que sejam respeitados limites previamente demarcados.
O alerta foi feito na conversa com Trump, dia 14. Xi deu então o que seria o mote chinês da visita: caso a questão de Taiwan seja mal administrada, os dois países podem cair numa “armadilha de Tucídides”. Cunhado pelo cientista político americano Graham Allison, o termo se refere à avaliação de Tucídides sobre a guerra do Peloponeso, do século V antes de Cristo. A rápida ascensão de Atenas provocou receios em Esparta, potência dominante na época, o que levou à guerra e ao enfraquecimento de ambos os contendores, que foram em seguida subjugados pelo império macedônico de Filipe II.
Colocar Trump e estabilidade na mesma frase é um oxímoro. Trump é a instabilidade em pessoa. Na hora, manteve um simpático silêncio diante do comentário do anfitrião. Contudo, o que ele de fato fará, não se sabe. Lembremos que, no seu primeiro mandato, meses depois da visita a Beijing de novembro de 2017, Trump impôs pesadas tarifas sobre vários produtos chineses, e a China retaliou na mesma moeda.
No início do segundo mandato, de novo Trump deu início a uma guerra comercial, voltando atrás depois que a China reagiu com tarifas e restrições a exportações de minerais estratégicos para os EUA.
Taiwan é um tema sensível também nos EUA. Marco Rubio, por exemplo, distinguiu-se no Congresso americano como um dos mais ácidos críticos a qualquer interferência chinesa na ilha. Tanta combatividade levou a China a aplicar-lhe sanções e até proibir sua entrada em território chinês. Na visita, o problema foi habilmente contornado pelo protocolo, segundo o qual as sanções haviam sido aplicadas ao senador, e não ao assessor presidencial, ao qual foi garantida, assim, licença para acompanhar seu chefe.
Acontece que o Congresso americano aprovou, em dezembro, uma venda de armamentos a Taiwan orçada em US$ 11 bilhões. Seria a maior venda da história. Na preparação da visita, Trump segurou o assunto e não confirmou o negócio.
De volta a Washington, Trump bravateou que a venda seria uma carta na manga para as negociações com a China, e insinuou que a autorização final “vai depender de Xi Jinping”. Sugeriu, ainda, que falará com Lai Ching-te, presidente de Taiwan, para discutir o assunto. Se o fizer, será a primeira vez que um presidente americano mantém um diálogo oficial com um líder taiwanês desde 1 de janeiro de 1979, quando Jimmy Carter reconheceu formalmente a República Popular da China e cortou os laços diplomáticos com Taipei.
É curioso notar que, em fins de 2021, Joe Biden propôs a Xi Jinping uma nova moldura para as relações bilaterais, baseada em “competição responsável”, uma estratégia essencialmente igual à proposta agora pelo líder chinês. Na época, não houve reação chinesa. O que parece ter mudado é que agora a China se sente confortável, julga que o tempo corre a seu favor e aposta no longo prazo.
Não está claro se e como funcionará a estabilidade construtiva. Vender armamentos a Taiwan seria “construtivo”? Quem define, afinal, o que é ou não é construtivo? E como reagirão os “falcões” do Congresso americano, ala com a qual Marco Rubio mantém laços estreitos, a uma estratégia tão colaborativa? Mais detalhes deverão emergir até o próximo encontro Trump-Xi, previsto para setembro, às vésperas da Assembleia Geral da ONU.
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