Quem cuida também precisa ser cuidado
Reflexão sobre a sobrecarga de mães atípicas e a necessidade de acolhimento contínuo
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Existe um olhar que a gente aprende a desenvolver – ou não – ao longo da vida: o olhar sensível. Aquele que vai além do óbvio, que enxerga não só quem precisa de cuidado, mas também quem sustenta esse cuidado todos os dias.
No ano passado, em uma ação de extensão na faculdade, vivemos exatamente isso. Sou coordenadora de Psicologia na Estácio e, junto com a Fisioterapia, organizamos uma noite de atendimentos estéticos para mães atípicas.
A proposta inicial era oferecer um momento de cuidado para mulheres que passam grande parte da vida cuidando dos filhos. No entanto, durante os convites, uma mesma resposta começou a se repetir: “com quem eu vou deixar meu filho?”.
Foi nesse momento que a sensibilidade deixou de ser apenas percepção e se transformou em ação. Organizamos uma proposta interdisciplinar em que, enquanto os alunos da Fisioterapia cuidavam das mães, os estudantes da Psicologia acolhiam as crianças na brinquedoteca.
A ideia parecia simples, mas revelou algo profundo sobre a forma como ainda olhamos para o cuidado.
Abril é um mês em que se fala muito sobre o autismo, e com razão o foco costuma estar nas crianças, nos diagnósticos, nas terapêuticas e nas intervenções necessárias para o desenvolvimento.
Mas ainda se fala pouco sobre quem sustenta essa rotina diariamente. Pouco se fala sobre quem acorda cedo, organiza consultas, enfrenta deslocamentos, administra crises, adapta a própria vida e, muitas vezes, deixa de existir para si para continuar existindo para o outro.
Na psicologia, essa realidade é compreendida dentro do que se chama sobrecarga do cuidador. Aaron Beck, ao discutir os impactos emocionais da responsabilidade contínua, mostra como a percepção constante de que não se pode falhar produz exaustão emocional, ansiedade e adoecimento psíquico.
Cuidar, quando feito sem pausa e sem rede de apoio, não apenas cansa. Cuidar machuca.
Foi justamente a partir dessa compreensão que, em 2026, entendemos que não bastava realizar uma ação pontual.
As terapêuticas também precisavam alcançar quem cuida. O projeto então passou a oferecer acolhimento contínuo para mães atípicas, enquanto seus filhos também são acompanhados em um espaço seguro dentro da instituição.
A experiência tem sido transformadora para todos os envolvidos. Os alunos relatam aprendizados que não cabem nos livros, porque aprendem a escutar para além da queixa e a perceber necessidades que muitas vezes permanecem invisíveis.
As famílias encontram um espaço de escuta, troca e pertencimento. Recentemente, uma das crianças não queria ir embora porque, pela primeira vez em muito tempo, estava apenas sendo criança.
Isso revela algo importante: instituições de ensino superior não devem apenas formar profissionais.
Elas também têm a responsabilidade de devolver à sociedade parte do conhecimento que produzem em forma de cuidado, acolhimento e presença.
Muitas vezes, o que falta não é estrutura. É sensibilidade para perceber que, por trás de toda pessoa que precisa de cuidado, quase sempre existe alguém silenciosamente precisando dele também. E quem cuida também precisa ser cuidado.
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