O que perdemos quando deixamos nossa criança ir embora
Entre brincadeiras e respostas espontâneas, crianças mostram caminhos mais leves para lidar com sentimentos que os adultos costumam complicar
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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No último fim de semana, viajei com minha família para a Bahia e vivi uma experiência que, à primeira vista, parecia só mais uma atividade recreativa infantil — mas não foi. A proposta era simples: uma coelhinha havia perdido seu amigo coelho e, entre lágrimas e desespero, pedia ajuda às crianças para encontrá-lo pelo hotel, seguindo pistas. Uma brincadeira comum, até a gente começar a observar as reações.
Em determinado momento, a coelhinha disse: “toda vez que eu penso nele, eu choro”. E uma criança, com cerca de sete ou oito anos, respondeu com uma naturalidade desconcertante: “ué, então para de pensar nele”. Simples, direto, sem rodeios.
Em outro instante, enquanto a personagem chorava e demonstrava ansiedade, outra criança se aproximou com calma: “cheira a florzinha… agora sopra a velinha”, conduzindo ali uma técnica de respiração que muitos adultos só aprendem depois de anos — ou nunca aprendem.
A coelhinha repetiu, as outras crianças acompanharam, e, de repente, aquele grupo estava regulando emoção sem precisar nomear teoria nenhuma.
Aquilo me atravessou.
Na psicologia do desenvolvimento, especialmente a partir de Jean Piaget, entendemos que a criança está em uma fase em que o pensamento ainda não foi completamente capturado pela complexidade abstrata do adulto.
Há mais concretude, mais fluidez, menos sobrecarga de significados. Mas o que vi ali foi além de cognição — foi uma relação mais leve com o próprio sentir.
Crianças sentem muito, mas não necessariamente carregam esse sentir por tanto tempo. Elas transitam. Elas vivem a emoção e, muitas vezes, seguem.
Não ficam presas naquilo como nós, adultos, frequentemente ficamos. E talvez seja exatamente aí que a gente se perde.
Porque crescer também é aprender a complexificar tudo. A gente não só sente — a gente analisa, justifica, antecipa, revive.
A gente constrói camadas e mais camadas sobre algo que, muitas vezes, poderia ser apenas vivido e elaborado com mais simplicidade. E isso vai, aos poucos, apagando algo.
O brilho.
A Páscoa acabou de passar e, com ela, sempre vem a ideia de renascimento. Mas talvez renascer não seja se tornar alguém novo. Talvez seja recuperar partes que fomos deixando para trás no caminho — especialmente aquela forma mais leve, curiosa e presente de existir.
Como dizia Carl Jung: “toda criança sabe o que ainda não sabemos — e esquece o que não devemos esquecer”.
Há algo na nossa criança interior que não deveria ser abandonado. Quando ela vai embora, a gente até continua funcionando, mas perde cor, perde leveza, perde a capacidade de viver com menos peso.
Talvez o mundo não tenha ficado mais difícil. Talvez a gente tenha ficado mais duro.
E talvez o verdadeiro exercício — muito mais desafiador do que qualquer mudança externa — seja permitir que essa criança ainda tenha espaço para existir.
Porque, no fim, crescer não deveria significar se afastar de quem fomos.
Mas aprender a não esquecer.
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