A pulsão de morte e o espírito da guerra
Reflexão aponta a guerra como falência da civilização e derrota do humanismo
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
José Antonio Martinuzzo é Professor Titular da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Graduado em Jornalismo, é mestre e doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pesquisa mídia, política, comunicação organizacional, redes digitais e psicanálise, sendo autor de diversos livros na área.
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No desenrolar nefasto de uma guerra, de pronto já se estabelece um derrotado inescapável: a civilização humanística. Por incrível que pareça, muitas guerras se justificam – como se o morticínio fratricida se pudesse justificar – exatamente pela defesa de conquistas e valores – adivinhe? – humanísticos. Mas, em verdade, a narrativa belicosa da defesa da paz, da democracia, da liberdade, da dignidade, entre outros, mascara mesmo a tragédia do mal renitente.
O colapso do humanismo frente à guerra começa quando o que faz laço se perde diante do que aniquila, submete, subjuga, objetifica o outro. Ali, no ponto zero da desgraça, está a negação radical da possibilidade de outros caminhos para a convivência civilizada do desacordo.
A invenção da política pelos gregos, há mais de dois milênios, foi um empreendimento civilizatório para superar a bestialidade da guerra como meio de solução de conflitos. Mas por que, então, essa insistência em guerrear?
Na origem de tudo, está a pulsão de morte derrotando a potência do humano que nasce com cada um, e se destrói massivamente em conflitos armados. Matar em nome da vida e seus fundamentos é um oxímoro patente, mas que muitas vezes não se percebe ou não se quer perceber em sua incongruência incontornável.
A guerra em seus cenários largos e grandiloquentes de horror febril e fabril tem uma microfísica que a sustenta. Ela nasce e se nutre da maldade de cada um que faz conexão à cadeia insana da mortandade como possibilidade de se escrever a História.
Para Freud, somos criaturas originalmente agressivas, instadas a se civilizar sob pena de extinção da espécie. “A inclinação para a agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e autossubsistente, sendo o maior impedimento à civilização”, avisou.
“Em consequência dessa mútua hostilidade primária entre os seres humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração”, escreveu. A guerra é, desse modo, a falência da civilização e o grau máximo de risco de desaparecimento, ainda mais agora, turbinada pelo uso bestial da Inteligência Artificial.
Mas não é apenas a tecnologia que sustenta e favorece um tempo de guerra pervasiva. É mesmo uma sociabilidade perversa a fazê-lo, com seu apego aos deslimites, à desumanização do semelhante que não é espelho, ao imperativo do gozo a qualquer custo, ao despudor, e à lei da selva e suas máximas de submissão incondicional ou aniquilamento diante do mais forte.
Conforme alertou Pascal, “é perigoso mostrar demais ao homem como ele é igual aos animais, sem lhe mostrar sua grandeza. E é também perigoso mostrar-lhe demais sua grandeza sem sua baixeza. Mais perigoso ainda é deixá-lo ignorar as duas”.
Assim, é preciso ecoar Paul Valéry: “Toda civilização tem a mesma fragilidade de uma vida”. Dessa sorte, toda vez que morre um, vai-se com ele um quinhão de civilidade, e toda vez que nasce um, vem à luz com ele a missão de educar para a incondicional fraternidade. Parece que estamos perdendo esta “guerra” – por ora.
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