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JOSÉ ANTÔNIO MARTINUZZO

A perversão banalizada e o horror dos dias

Entre o colapso dos limites e a banalização da violência, a erosão do humanismo marca o espírito do nosso tempo

José Antônio Martinuzzo | 09/02/2026, 12:47 h | Atualizado em 09/02/2026, 12:47
José Antônio Martinuzzo

Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes

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          Imagem ilustrativa da imagem A perversão banalizada e o horror dos dias
José Antônio Martinuzzo. |  Foto: Divulgação

Atacar semelhantes com fúria letal. Matar cruelmente animais. Invadir terras estrangeiras. Promover caçadas humanas. Assassinar uniformizado. Objetificar o diferente. Atropelar a esmo. Furar fila. Trafegar na contramão. Agredir indefesos. Efetivar genocídios. Naturalizar o ódio. Desrespeitar o próximo. Quebrar regras. Ignorar limites. Normalizar a “lei da selva”...

A gramática da desumanização subjetiva e intersubjetiva, do extraordinário ao ordinário da vida, coleciona um sem-fim de verbos e conjugações que pintam mesmo a cena de um inferno na Terra. Isso tudo potencializado por uma realidade de hiperatualização e hiperconexão, patrocinada por redes dos mais variados matizes, dos factuais aos maliciosos.

Para vislumbrar saídas, o melhor é tentar enxergar o espírito do tempo que nos governa – ou nos desorienta. Desesperar-se e imobilizar-se só piora o quadro ansiogênico do hoje. Num arremedo de roteiro para pensar o horror contemporâneo, de pronto importa entender que a agressividade é estrutural da espécie que nasce apenas potencialmente humana.

Aliás, civilização humanística é o nome dado à cultura peculiar que, ao longo dos tempos, foi-se constituindo justamente para instituir contenções ético-morais, legais e institucionais, para, essencialmente, frear a pulsão de morte que energiza mentes e corpos.

É exatamente essa civilização, que se fortaleceu e ganhou escala a partir da Modernidade, sob os auspícios do Iluminismo, que vem sendo erodida dia a dia.

Para usar termos psicanalíticos, estamos abandonando uma sociabilidade neurótica – fundada no limite e no pudor, ainda que cobrando um alto custo para isso – e acelerando desbragadamente os passos nos descaminhos de uma sociabilidade perversa.

Trata-se de um contexto em que os limites, quaisquer que sejam, parecem abusivos, impróprios e mesmo ultrapassados.

Vale a lei do mais forte, do mais esperto, do mais hábil no talento nefasto da psicopatia em suas várias modulações e graus, da política à economia, das trocas mais comezinhas aos enlaces mais profundos.

Aqui, o lance é gozar no deslimite, louvar o despudor, banalizar a maldade. A adesão à perversão massiva se dá por identificação pulsional e mesmo por investimento numa cadeia de servidão voluntária (La Boétie, 1576), na qual a submissão à maldade ocorre em função da possibilidade de também exercê-la, no contexto de uma malignidade vulgarizada.

Ao escrever sobre a devastação da Primeira Guerra Mundial, Freud registrou, tocado pela pulsão de vida inerente à existência: “Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de modo mais duradouro do que antes”. Avanços vieram, mas retrocessos assaltaram o novo milênio.

Ainda não estamos na terra arrasada da civilização iluminista, mas já caminhamos sobre alguns de seus escombros. Por isso, é preciso reparar, reconstruir e reinventar a experiência humana sob o Sol, inspirados pelos mais elevados fundamentos do humanismo: fraternidade incondicional, dignidade incondicional.

Que sejamos capazes de enxergar além do horror dos dias, sustentando o que pulsa de vida em nós.

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