Sucesso no Enem: pessoas com mais de 60 anos sonham com reviravolta profissional
Aprovados na Ufes por meio do Sisu, eles agora buscam realização pessoal e sonham com uma mudança de carreira
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O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), tradicionalmente associado aos jovens em busca do primeiro diploma, também tem sido porta de entrada para um novo capítulo na vida de pessoas com mais de 60 anos.
Aprovados na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) por meio do Sistema de Seleção Unificado (Sisu), eles agora buscam realização pessoal e sonham com uma mudança de carreira e novos projetos profissionais.
É o caso do técnico em eletrônica Jorge Henrique Pinto de Oliveira, de 65 anos. Ele conquistou uma vaga no curso de Arquivologia da universidade federal.
A aprovação marca mais um capítulo de uma relação antiga com os estudos — e com o desafio de conciliar sonhos acadêmicos com as exigências da vida adulta.
Natural do Rio de Janeiro, Jorge chegou ao Espírito Santo ainda jovem, aos 22 anos, “com a cara e a coragem”, para trabalhar. Ao longo da vida, até chegou a iniciar cursos superiores, como Engenharia Elétrica, mas o casamento, os filhos e a necessidade de manter a rotina profissional acabaram adiando a conclusão de uma graduação.
“Os cursos, em sua maioria, tinham matérias à tarde e pela manhã. Não tinha como fazer e trabalhar ao mesmo tempo”.
Tentativas posteriores no ensino a distância também não avançaram, já que ele se identifica mais com o ensino presencial.
A familiaridade com provas, no entanto, nunca se perdeu. Jorge presta o Enem desde que o exame foi criado. “Eu faço as provas por gostar mesmo do desafio. Sou curioso e gosto de resolver as questões”, explicou.
No ano passado, a realização do exame teve uma motivação extra. Ele queria apoiar a filha, de 17 anos, que fazia a sua primeira prova para valer, tentando uma vaga em Medicina.
“Fiz a prova e me saí bem, para quem não estudou e não fez cursinho. Minha filha então me incentivou a me inscrever no Sisu e fui aprovado”, comemorou.
Agora, avalia cursar Arquivologia no período noturno, conciliando os estudos com o trabalho e a rotina familiar.
Para ele, a universidade segue sendo um espaço possível em qualquer fase da vida — desde que haja disposição para aprender e enfrentar novos desafios.
Você sabia?
De acordo com a Pró-Reitoria de Graduação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), há 131 estudantes com mais de 60 anos ativos atualmente. Além deles, outros aprovados no Sistema de Seleção Unificado (Sisu) devem ingressar este ano na instituição.
De volta à sala de aula
Sonho realizado após AVC e cirurgias cardíacas
Aprovado no curso de Biblioteconomia da Ufes, Jorge Luiz Costa, de 68 anos, não esconde a felicidade. Ele contou que começou a trabalhar muito cedo para ajudar nas despesas de casa. Sem conseguir concluir os estudos na época, atuou desde jovem como mecânico de refrigeração.
O retorno para a sala de aula só aconteceu após os 50 anos, quando decidiu concluir os ensinos fundamental e médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA).
O caminho, no entanto, não foi simples. Aos 58 anos, Jorge sofreu um AVC que deixou sequelas na locomoção, além de enfrentar cirurgias cardíacas. Mesmo assim, não desistiu.
“Eu fiz o Enem algumas vezes. Sempre tive fé que não iria morrer antes de ter um curso superior. Eu gostava de estudar, mas não podia. Hoje, a juventude tem tanta oportunidade e nem sempre aproveita”.
“Quero deixar esse exemplo para meus netos”
Aos 67 anos, Celma Leila Rocha Nunes se prepara para viver algo inédito: o primeiro dia de aula na universidade. Aprovada em Gemologia, ela realiza um sonho adiado por décadas em uma vida inteira de trabalho e responsabilidades.
Tendo trabalhado como babá, atendente em lojas, auxiliar de serviços gerais e vendedora, ela precisou priorizar a sobrevivência e a família ainda jovem. “Em 2023, eu fiz a EJA e terminei o ensino médio. No ano passado, meu sobrinho me convenceu a me inscrever no último dia. Eu queria sentir a emoção de fazer aquela prova”.
Aposentada, dividindo a rotina entre os cuidados com a mãe, de 94 anos, e com a netinha ainda bebê, Celma contou que o resultado surpreendeu. “O retorno aos estudos não representa apenas uma conquista pessoal, mas também um legado de incentivo que quero deixar para meus netos e todos que acreditam que nunca é tarde para recomeçar”.
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