Acesso maior a medicamentos para emagrecer ameaça consumo nos bares
Usuários da semaglutida reduziram consumo de cerveja. Patente do princípio ativo de remédios como Ozempic vai expirar
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O prazo para a expiração da patente da semaglutida, o princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, está se aproximando, e uma das consequências pode ser a ameaça ao setor de bares e restaurantes.
Isso porque a semaglutida é um medicamento que imita o hormônio intestinal (GLP-1) e acaba por reduzir o consumo de bebidas alcóolicas por seus usuários em até 55%, segundo levantamento do banco Goldman Sachs.
“A sociedade é dinâmica, muda de hábitos constantemente, e esses números podem trazer uma queda no faturamento desse setor, que pode se intensificar a longo prazo, principalmente se não houver uma readequação do setor”, disse o presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), Ricardo Paixão.
Além de atuar no estômago, a sesemaglutida também age no sistema de recompensa do cérebro, explica a médica endocrinologista Maria Amélia Julião.
“Normalmente, o álcool libera dopamina, gerando sensação de prazer. A semaglutida diminui euforia que a bebida traz. Basicamente, o cérebro para de pedir aquela dose extra de dopamina que a cerveja fornecia. O desinteresse costuma se estender a vinhos, destilados, e comidas hiperpalatáveis, ricas em gordura, açúcar e sal”, apontou.
Usuários do princípio ativo também reduziram o consumo de porções e salgados, o que pode causar um impacto ainda maior para o setor, mas não por muito tempo, afirma o presidente do Corecon-ES.
“Esse setor é muito dinâmico, consegue responder rápido as alterações de mercado. Se você vê os resultados operacionais de empresas como a Ambev, não há queda brusca de lucro que aponta crise drástica. Então, esse impacto deve ocorrer a curto e médio prazo”, apontou.
A diversificação de produtos oferecida por bares e restaurantes também corrobora para a manutenção da lucratividade do setor frente à ameaça da semaglutida, destaca o economista Roberto Vertamatti.
“A diversificação e adaptação de produtos vai ocorrer, os estabelecimentos estão se adaptando a novas realidades, e os reflexos econômicos serão limitados", afirmou.
“Setor está preparado”, diz presidente do Sindbares
Apesar dos números, a ameaça gerada pela aproximação da quebra da patente da semaglutida não gera apreensão por parte do setor de bares e restaurantes.
A adequação às mudanças de comportamento dos consumidores não é algo novo, afirma Rodrigo Vervloet, presidente do Sindicato dos Restaurantes, Bares e Similares do Espírito Santo (Sindbares-ES) e da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).
“Estamos preparados para as mudanças, o setor é vivo, está sempre atento. Já vivemos mudanças de comportamento e consumo em outras épocas, e também conseguimos nos adequar”, defendeu.
Para o banco Goldman Sachs, a entrada dos GLP-1 traria mais pressão para um mercado que já está lutando para manter a escala. Em 2025, a produção de bebidas alcoólicas teve uma contração de 5% na comparação com o ano anterior.
Porém, o presidente garante que o setor está seguro não só pela adaptabilidade, mas também pela diversidade de experiências oferecidas ao consumidor.
“Nós ofertamos mais do que alimentação e bebida, oferecemos convívio social, confraternizações, aniversários. Toda essa convivência social que é necessária no dia a dia, e que é indispensável para a saúde mental das pessoas, para a diversão”, disse.
Ainda segundo o banco, o uso da semaglutida tem pressionado o segmento de cervejas nos últimos dois anos, especialmente entre consumidores mais jovens. Como resposta, algumas companhias têm investido na expansão e mudança de produtos, estratégica que Vervloet afirma ser utilizada em estabelecimentos do Estado.
“Muitas vezes os comércios mudam as porções, as receitas e as fórmulas para nos adequar aos clientes. Sem dúvida, continuaremos de portas abertas, nos adaptando aos novos comportamentos dos consumidores”, destacou.
Entenda
Quebra de Patente
Após 20 de março deste ano, a patente da semaglutida chega o fim no Brasil.
Laboratórios brasileiros já se preparam para iniciar, em abril, a produção de versões genéricas e similares dos medicamentos Ozempic e Wegovy, amplamente buscados por seus efeitos na perda de peso.
Ameaça para setor
A queda no consumo de cerveja e outras bebidas alcoólicas foi registrada entre usuários de GLP-1, princípio ativo da semaglutida, de acordo com levantamento do banco Goldman Sachs.
55% é a queda máxima de consumo entre usuários de semaglutida.
Em análises de sensibilidade, o banco avalia que o risco de queda para a Ambev (ABEV3) é de 8% até 2027.
O levantamento estima um impacto negativo de 50 pontos-base (ou 0,5 pontos percentual).
Para o banco, a quebra da patente pressionaria mais um mercado que já está lutando para manter a escala.
Impacto global
Em 2025, a produção de bebidas alcoólicas teve uma contração de 5% na comparação com o ano anterior. Conforme os analistas, essa queda ainda poderia desencadear um declínio mais acentuado em 2026 e 2027.
Em canais de checagem promovidos pelo Goldman Sachs, o uso de GLP-1 tem pressionado o segmento de cervejas nos últimos 1 a 2 anos, especialmente entre consumidores mais jovens.
Efeitos da semaglutida
A substância é análoga do hormônio GLP-1, produzido pelo corpo. Além de atuar no estômago, age na área mesolímbica, que regula o sistema de recompensa do cérebro.
O efeito é sistêmico, e modula os circuitos cerebrais que geram sensação de prazer, diminuindo a euforia que a bebida traz. Estudos sugerem que o remédio reduz o efeito de dopamina que a cerveja fornecia.
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