O poder medicinal da empatia
Crônicas e dicas do doutor João Evangelista, que compartilha sua grande experiência na área médica
Dr. João Evangelista
Ao entrar pela primeira vez no anatômico, o calouro se depara com uma placa de mármore, onde é possível ler a seguinte mensagem:
“Ao curvar-te com a lâmina rija de teu bisturi sobre o cadáver desconhecido, lembra-te que este corpo nasceu do amor de duas almas; cresceu embalado pela fé e esperança daquela que em seu seio o agasalhou, sorriu e sonhou os mesmos sonhos das crianças e dos jovens; por certo amou e foi amado e sentiu saudades dos outros que partiram, acalentou um amanhã feliz e agora jaz na fria lousa, sem que por ele tivesse derramado uma lágrima sequer, sem que tivesse uma só prece.
Seu nome só Deus o sabe; mas o destino inexorável deu-lhe o poder e a grandeza de servir a humanidade que por ele passou indiferente. Tu que tivestes o teu corpo perturbado em seu repouso profundo pelas nossas mãos ávidas de saber, o nosso respeito e agradecimento”.
Inicia-se o curso de Medicina, dissecando a morte. Durante um ano, o cadáver, esse santuário onde se hospedou a vida, será estudado minuciosamente.
Ossos, junturas, ligamentos, músculos, vasos, órgãos, tecidos, aparelhos, sistemas, entre outros, serão analisados e memorizados.
Com o passar do tempo, serão acrescentadas cadeiras novas, como histologia, microbiologia, genética, parasitologia, embriologia e microbiologia, envolvendo patologias.
Debruçado sobre a fisiologia, o acadêmico aprende as funções do organismo vivo. Abraçado com a patologia, ele analisa doenças que podem comprometer a saúde.
Dotado de conhecimento sobre anatomia, fisiologia e patologia, o futuro médico tem contato com a farmacologia, essa ferramenta utilizada para recuperar a saúde do paciente.
A partir daí, o acadêmico inicia o estudo das cadeiras clínicas, onde terá contato com o corpo vivo, representado pelo paciente, cada um com sua história singular.
Cardiologia, urologia, nefrologia, psiquiatria, neurologia, gastroenterologia, proctologia, pediatria, dermatologia, ginecologia, oftalmologia, etc.
À medida que estuda essas cadeiras, o futuro clínico ou cirurgião vai se identificando, até abraçar uma delas. Na verdade, não é o acadêmico que escolhe a especialidade; é a especialidade que escolhe o acadêmico.
São necessários seis anos de estudo para o exercício da medicina. Cabe lembrar, entretanto, que existe diferença entre informação e formação.
Quando o médico cuida de um doente, ele pode ganhar ou perder. Quando cuida de uma pessoa, ele sempre ganha.
Durante o período da faculdade, o acadêmico aprende que doença é um distúrbio fisiológico da célula. Com o tempo, ele também vai descobrir como se comporta o doente, diante desse desequilíbrio.
Quando o médico, finalmente, acha que tem todas as respostas, a vida muda todas as perguntas.
Exercendo medicina há meio século, eu almejei três títulos de especialista. Dois deles, gastroenterologia e clínica geral, eu consegui conquistar. Continuo estudando, visando obter o terceiro título, de “especialista em gente”.
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