Digitalidade e o desafio à interrogação
Tecnologia, desinformação e o risco de uma nova servidão cognitiva
Pós Doutor em Psicanálise, doutor em Comunicação e professor titular da Ufes
Animais intrigados, inventamos a filosofia, as ciências, para tentarmos dar conta de uma faculdade peculiar ao Homo sapiens: perguntar. Inquirir à realidade sobre a contingência do existir, buscar verdades que desvendem ou constituam um sentido à vida, conhecimentos que aplaquem as dores do vazio estrutural, do desamparo essencial e da certeza da morte incerta no tempo e no espaço.
O não saber é fonte de angústia fundante do humano. E, por mais contraditório que possa parecer, a luta contra o ilusório e a ignorância tem se tornado cada dia mais desafiante neste tempo de inaudito auge tecnológico-informacional.
A digitalidade, que vem potencializando tudo sob o Sol, numa radicalização do humano, demasiado humano, também está incrementando a inescapável angústia da interrogação sem fim. E o faz não pela via do incentivo à atividade cognitiva e intelectual.
Muito pelo contrário, aprofunda incertezas e dúvidas por meio da radicalização das falsidades e da promoção do dessaber em rede. “Isso é real?” tornou-se pergunta obsessiva nas interações atuais.
A vida não está sendo fácil para aqueles que ainda honram a dignidade, ou a distinção humana, de buscar a autonomia do existir pelo exercício do espírito próprio da nossa espécie – bem definido por Hannah Arendt como a capacidade de pensar, desejar e realizar e executar tudo isso com um filtro ético –, resistindo, de algum modo, a soluções mágico-anímicas e suas variantes mítico-dogmáticas.
Com a massificação das redes sociais digitais, a década de 2010 testemunhou a fixação de um novo ingrediente na sopa das intersubjetividades, as fake news, ou seja, as mentiras com cara de verdade, construídas segundo as marcas narrativas da notícia, um tipo de texto que se consolidou ao longo do século XX como portador de relatos ancorados na factualidade.
Na atual década, inaugurada pela trágica pandemia da covid-19, testemunhamos um cataclismo econômico, político e climático de radicalidades severas e desconcertantes. Não bastasse, assistimos à ascensão da Inteligência Artificial, seus robôs e suas deepfakes. Diante de uma realidade de inacreditáveis retrocessos e contradições, ainda temos de filtrar narrativas realísticas, por artimanha digital, que são engenhosas mentiras editadas em multimídia.
Com a prevalência cada vez maior da digitalidade em nossas vidas e o refino das técnicas generativas – já há mais conteúdos feitos por IA na internet do que produzidos por humanos –, perceber a realidade e constituir um repertório que promova e sustente nossa autonomia, fazendo jus à nossa condição, vem se tornando um desafio crescente.
Na toada que seguimos, sem atenção aos riscos do empreendimento da Inteligência Artificial e num mergulho sem anteparos nos ciberterritórios, o retrocesso nas formas de subjetivação, nos laços sociais e mesmo na vida cívica parece ser o destino.
No horizonte das conexões, com dificuldades recrudescentes em distinguir realidade de ficção, verdades factuais de mentiras digitais, acena a profunda escuridão da servidão aos senhores das big técnicas.
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