“Gatonet” sai do ar após cerco e usuários reclamam
Autoridades derrubam plataformas piratas no Brasil, adotam asfixia financeira, fecham CNPJs e investigam lavagem de dinheiro
No fim de 2025, autoridades apertaram o cerco contra plataformas de streaming pirata no Brasil e retiraram milhares de páginas ilegais do ar. Conhecidos como “gatonet”, esses sites oferecem acesso a um grande catálogo de produtos audiovisuais por preços módicos, uma vez que não pagam direitos autorais nem impostos —o que é crime.
Alvo de uma ação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público em novembro, a plataforma Tyflex, por exemplo, vendia uma assinatura vitalícia por R$ 30, com acesso a canais de televisão, filmes e séries.
O serviço saiu do ar depois que a operação adotou uma estratégia de asfixia financeira da empresa.
Com a derrubada das plataformas piratas, clientes ficaram sem acesso aos conteúdos e passaram a se queixar na internet e em portais como o ReclameAqui sobre falhas e problemas com os sites. Mas os direitos do consumidor nesse caso são limitados, visto que contratos de prestação de serviço considerados ilegais perdem a validade jurídica.
A ação que mirou a Tyflex, batizada de Endpoint, foi uma das conduzidas por órgãos de investigação nos últimos meses. Operações da Procuradoria e do Ministério da Justiça mostraram que os esquemas envolvem também táticas complexas de lavagem de dinheiro com CNPJs frios e criptomoedas.
O Ministério Público investigou outras duas plataformas: a DezPila, que operava de forma similar à Tyflex, e a Onlyflix, que pirateava conteúdo adulto do site OnlyFans. A operação encerrou 14 CNPJs e cumpriu cinco mandados de prisão preventiva. Hoje, três deles estão sob custódia, e dois, foragidos.
Asfixia
A Procuradoria diz seguir com o protocolo de asfixia financeira dos investigados.
A estratégia busca evitar que criminosos sigam com as IPTVs (sigla para TV on-line) piratas no ar após o bloqueio do site, por meio de uma mera troca de endereço de IP (o endereço virtual da página).
“Nosso objetivo, desde o início foi acessar o financiamento dos cinco investigados”, diz o promotor do Ministério Público do Ceará (MPCE) José Siderlândio do Nascimento.
Mineração de criptomoedas com furto de energia
Além do bloqueio de R$ 12 milhões em bens, sem contar criptoativos, os investigadores encontraram sob posse dos suspeitos mais de 200 máquinas para mineração de bitcoin. Os equipamentos estavam ligados a conexões elétricas com indícios de furto de energia. Bitcoins recém-minerados são ativos sem origem e podem ser um meio de lavar dinheiro.
Também deflagrada em novembro, a oitava fase da Operação 404, liderada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, seguiu a mesma estratégia de seguir o dinheiro —e as criptomoedas. A diferença foi o escopo internacional.
Segundo a pasta, a operação teve participação da Argentina, do Equador, do Paraguai, do Peru e do Reino Unido.
A ação, em parceria com a Polícia Civil do Mato Grosso, cumpriu, só no Brasil, 44 mandados de busca e apreensão, quatro de prisão preventiva e prendeu três pessoas em flagrante em diversos estados brasileiros.
O braço argentino da operação derrubou um dos “gatonets” mais populares no Brasil, o My Family Cinema.
Segundo a investigação, o núcleo da operação atuava da Argentina e contava com uma base de até 8 milhões de usuários pagantes em todo o mundo. A título de comparação, a Claro, a maior provedora de TV paga do Brasil, tem cerca de 3 milhões de clientes.
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