Hábito de leitura ganha força entre diversas gerações
Especialistas apontam que a população nunca leu tanto como agora, mas houve mudanças no ato de ler
Em um mundo marcado pela inconstância e pela perda de costumes tradicionais, o hábito da leitura mostra que sobreviveu à revolução cultural gerada pelas novas tecnologias e ganha força entre todas as idades.
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A transformação das práticas de leitura pode produzir estranhamento e deixar a impressão que ela tinha sumido, mas é exatamente o contrário, segundo a professora doutora Maria Amélia Dalvi, do Departamento de Linguagens, Cultura e Educação da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
“Possivelmente, a população nunca leu tanto. Tem gente que lê de tudo, já outros têm uma leitura altamente especializada e seletiva. Temos também os textos rápidos que nos chegam na internet. A grande questão me parece ser como lidaremos com essas mudanças de leitura”, afirmou.
A estudante Victoria Gianordoli, de 14 anos, que está no 9º ano do ensino fundamental, conta que gosta muito de ler mangás, que são histórias em quadrinhos japonesas, e clássicos da literatura, como “Alice no País das Maravilhas”.
“Eu leio bastante. A leitura impulsiona minha memória quando estudo para as provas da escola. Meus amigos me recomendam livros, principalmente quando vamos à livraria”, conta.
Victoria ressalta também que o início do processo não foi fácil, mas que algumas práticas foram essenciais para manter o hábito. “Comece criando metas baixas. É sempre bom reconhecer seus gostos para ajudar a não achar a leitura algo cansativo. Eu, por exemplo, gosto muito de mangás, pois a leitura é mais dinâmica”, explica.
Experiência
Apesar dos diversos novos formatos de livros e leitura, a experiência de ler o tradicional livro de papel pode ser benéfica, destaca o psicólogo Alexandre Brito.
“Ler em uma tela pode trazer distrações, além de afetar a visão caso você mantenha uma leitura prolongada. A experiência de ler um livro físico estimula aspectos sensoriais, o toque, o cheiro do livro e virar as páginas. Você acaba criando uma relação com aquele livro, guarda com carinho e cuida dele”, explicou.
Entre uma das formas de leitura que vem se intensificando estão os grupos e clubes de livros, aponta a professora Maria Amélia.
“Hoje, existem inúmeros cursos, plataformas, grupos e clubes dedicados a leituras. Talvez, a leitura como conhecíamos tenha sumido, mas não a leitura em si”.
Literatura para mulheres
Leitura compartilhada, onde cada integrante é estimulada a partilhar a perspectiva da leitura a partir da própria vivência. Essa é a proposta da roda de leitura da qual participa a escritora Carla Guerson, de Vitória.
“Nosso grupo existe há 10 anos e já mudou algumas vezes de configuração, mas sempre formado por mulheres para ler mulheres. É um espaço onde a leitura vira uma experiência coletiva, em um ambiente de escuta, acolhimento e troca genuína”, contou a escritora.
A leitura em conjunto oferece, além de um espaço de convivência, novas opiniões sobre os livros, afirma Carla.
“Além da minha visão do livro que estou lendo, eu tenho diversas outras a respeito. Isso expande a experiência e nossa visão de mundo”, disse.
Livro como companhia
Livros são mais do que histórias escritas, são também uma forma de companhia.
Essa é a mensagem da estudante de Letras Lya Mattje, que criou o LyaBooks, perfil no Instagram dedicado à indicação de livros, filmes, séries e conteúdo digital.
“Muitos usam as minhas indicações, adicionam nas listas de leituras, e isso é algo que eu gosto de incentivar. Meu principal objetivo é mostrar às pessoas que, na leitura, há sempre uma companhia”, diz.
“Pessoas que passam por momentos difíceis e não têm ninguém para desabafar podem se identificar com personagens e encontrar conforto naquele momento”.
Biblioterapia para desacelerar
A leitura também é utilizada como recurso terapêutico na biblioterapia, prática ministrada pela professora Carla Sousa. “Ficamos hiperestimulados, acelerados com o uso de telas. A biblioterapia promove a organização dos sentimentos, ajuda a desacelerar e relaxar, por meio de textos literários trabalhados sempre em grupo”.
PARA GOSTAR DE LER
1) Aos poucos
Comece aos poucos, se comprometendo a ler uma ou duas páginas por dia. Um bom momento para iniciar este hábito é logo antes de dormir, ao se deitar. Prefira uma leitura com a qual se identifique e tenha real interesse. Dessa forma, você abre espaço para a leitura.
2) Metas diárias de leituraAo invés de prometer a si próprio ler um livro por mês, ou vários por ano, prefira definir um número de páginas ou um tempo específico para ler todos os dias. Começar com 10 a 15 minutos ou cinco a 10 páginas por dia já é um ótimo pontapé para consolidar o hábito de leitura. O importante é focar em manter o hábito.
3) Livro a tiracoloTer um livro a tiracolo, na bolsa ou mochila, é ótimo para manter o hábito da leitura. Você pode ler entre refeições, enquanto espera uma consulta médica ou atendimento, na pausa do trabalho ou dos estudos.
4) Livro nas mídias
As redes sociais e outras mídias digitais podem ser usadas como aliadas na leitura. Pesquise sobre os livros que está lendo, use as redes sociais para encontrar outros leitores e também compartilhe a sua experiência nas redes.
5) Sem pressaFoque em ler no seu ritmo, sem se preocupar com o tempo que vai levar para concluir a história. Se precisar, releia trechos marcantes ou importantes, ou volte em um capítulo que gostou. A leitura deve ser prazerosa, e não uma competição consigo mesmo.
6) Não se cobre tanto
Não gostou do livro? Não conseguiu terminar? Mudou de livro no meio da história? Tudo bem! Lembre-se: a leitura precisa ser, antes de tudo, prazerosa. Nem sempre estamos bem ou prontos para fazer uma leitura. É natural. Portanto, segure a cobrança! Seja persistente no hábito de leitura, não deixe de manter suas metas diárias, mas não se culpe se decidir abandonar um livro antes do fim, é melhor continuar a ler uma história que você goste mais.
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