Megaoperação contra o PCC: criminosos compraram bancos digitais
Fintechs atuavam como bancos paralelos no esquema de lavagem de dinheiro do PCC
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Bancos digitais controlados pelo crime organizado tinham papel central na lavagem de dinheiro do PCC, segundo a investigação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP).
O dinheiro passava por empresas de fachada, fundos de investimento e instituições de pagamento que ajudavam a ocultar os verdadeiros beneficiários. Nesse contexto, os bancos digitais – as fintechs – operavam com contabilidade paralela, permitindo transferências entre empresas e pessoas físicas sem que os beneficiários finais fossem identificados.
Esse capital ilícito foi usado para comprar usinas sucroalcooleiras, distribuidoras, transportadoras e postos de combustíveis, ampliando o controle do PCC sobre diferentes etapas da cadeia produtiva.
Sem mencionar o nome da instituição, a Receita Federal diz que uma fintech atuava como “banco paralelo” da organização, tendo movimentado mais de R$ 46 bilhões de 2020 a 2024. E recebia diretamente valores em espécie.
Entre 2022 e 2023, foram mais de 10.900 depósitos em espécie, totalizando mais de R$ 61 milhões. O procedimento é considerado “estranho” à natureza de uma instituição de pagamento.
As mesmas pessoas controlavam outras instituições de pagamento menores, usadas para criar uma dupla camada de ocultação.
Segundo a Receita, o uso de fintechs objetiva aproveitar brechas na regulação desse tipo de instituição. Isso impede o rastreamento do fluxo dos recursos e a identificação, pelos órgãos de controle e de fiscalização, dos valores movimentados por cada um dos clientes da fintech de forma isolada.
Entre os bens adquiridos, estão um terminal portuário, quatro usinas de álcool, 1.600 caminhões de combustíveis e mais de 100 imóveis — entre eles seis fazendas no interior de São Paulo, avaliadas em R$ 31 milhões, e uma residência em Trancoso (BA), de R$ 13 milhões.
A operação foi deflagrada pelo governo Lula, em resposta às críticas de Donald Trump, que tenta classificar facções brasileiras como terroristas para justificar tarifas. O Planalto buscou usar a ofensiva para mostrar firmeza contra o crime e conter pressões dos EUA.
O presidente Lula avaliou como “a maior resposta ao crime organizado de nossa história até aqui”.
Empresa investigada dá nome a cinema
Entre as empresas investigadas pela Operação Carbono Oculto está a Reag Investimentos, com ações negociadas na B3, a Bolsa de Valores da capital paulista. A empresa também ficou ainda mais conhecida por se tornar patrocinadora do Belas Artes, um dos cinemas mais tradicionais de São Paulo.
A gestora adquiriu os naming rights do cinema — quando uma empresa adquire por contrato o direito exclusivo de dar o seu nome a um espaço — e o local passou a se chamar Reag Belas Artes.
Em seu site, a Reag se define como a maior gestora independente do Brasil (sem ligação com bancos), com R$ 299 bilhões sob gestão. Por ter suas ações negociadas na B3, a gestora indica que garante seu compromisso com a transparência.
A gestora é controlada pela Reag Capital Holding S/A, que também controla outra holding independente, a Ciabrasf, além de seguradoras e financeiras. Fundada em 2012, a Reag tem se destacado no cenário financeiro brasileiro, e passa por um processo acelerado de expansão.
Embora o balanço consolidado de 2024 ainda não tenha sido divulgado, os resultados trimestrais mostram uma reviravolta significativa: a Reag saiu de um prejuízo de R$ 2,1 milhões no primeiro trimestre de 2023 para um lucro líquido de R$ 2,9 milhões no mesmo período de 2024.
A Reag divulgou fato relevante ao mercado para confirmar que foram cumpridos mandados de busca e apreensão nas sedes da empresa no âmbito da Operação Carbono Oculto.
De acordo com a gestora, trata-se de procedimento investigativo em curso. A empresa também informou que está colaborando com o fornecimento de informações e documentos, e que permanece à disposição para esclarecimentos.
Saiba Mais
Como era o esquema para lavar dinheiro
1. Importadoras adquiriram no exterior nafta, hidrocarbonetos e diesel utilizando recursos de empresas ligadas ao PCC.
2. Ao chegarem no Brasil, os recursos eram direcionados para formuladoras de combustíveis, distribuidoras e postos de combustíveis.
3. Os postos de combustíveis recebiam os valores em espécie ou por meio de maquininhas de cartão, e repassavam o dinheiro do crime ao PCC por meio de suas contas bancárias.
4. Os valores ingressavam no sistema financeiro por meio de fintechs, que recebiam os pagamentos e operavam como bancos paralelos para a organização criminosa.
5. o PCC teria 40 fundos de investimento e R$ 30 bilhões em patrimônio.
Ameaças de morte
Integrantes do PCC são acusados de se infiltrar em todo o setor de produção de cana-de-açúcar e ameaçaram empresários e fazendeiros no interior de São Paulo, segundo investigação do Ministério Público (MP) do estado.
Denúncias
Empresários, agricultores e outros profissionais do setor agroindustrial — vinculados ao álcool, à cana e à produção de combustíveis — relataram ao MP uma série de situações suspeitas.
Esses relatos apontam que fazendeiros, proprietários de usinas e donos de postos estavam sendo coagidos a vender suas propriedades aos grupos do PCC.
Intimidação
Também foram registradas suspeitas de incêndios criminosos em canaviais, empresas e propriedades rurais como forma de intimidação.
Segundo as denúncias recebidas pelo Ministério Público, as transações eram frequentemente realizadas à vista, em dinheiro, com valores subfaturados — e os vendedores eram ameaçados de morte caso tentassem desistir ou denunciassem a coação.
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