Que evidência te faria rever tua posição?
A pós-verdade não precisa inventar fatos: seleciona evidências, retira contexto e as organiza para confirmar crenças
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
Siga o Tribuna Online no Google
Em 2011, físicos ligados ao CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear, anunciaram uma medição segundo a qual partículas pareciam viajar mais rapidamente que a luz.
Um resultado que colocava a teoria da relatividade de Einstein em xeque. Mas tudo se tratava de um cabo mal conectado no sistema de sincronização do GPS. Convenhamos: se os cientistas do CERN erraram por causa de um cabo solto, por que ainda deveríamos acreditar neles?
A desconfiança não nasce apenas de um cabo solto. A própria ciência nos dá argumentos suficientes para desacreditá-la.
Em 1998, a revista médica The Lancet, uma das mais respeitadas do mundo, publicou um estudo que relacionava vacinas ao autismo.
Décadas depois, veio o diário de Anthony Fauci, principal voz científica dos Estados Unidos durante a pandemia. Suas anotações foram apresentadas como prova de que suas dúvidas eram maiores do que aquelas admitidas publicamente. Se nem Fauci dizia tudo o que sabia, por que acreditar no que a ciência nos dizia?
Se tu chegaste até aqui, eu acabo de tentar fazer contigo o que a pós-verdade faz todos os dias. Eu não precisei inventar fatos. Bastou selecionar fatos verdadeiros, retirar parte do contexto e organizá-los em direção a uma conclusão que já estava pronta.
Quem já desconfiava da ciência encontrou no texto razões para continuar desconfiando. O cabo solto ganhou mais peso do que as descobertas realizadas no CERN. Um estudo retratado tornou-se mais convincente do que todos os estudos posteriores. O viés de confirmação opera nessa diferença: somos menos exigentes com aquilo que confirma nossas crenças.
Em vez de utilizar as evidências para chegar a uma conclusão, utilizamos as evidências disponíveis para defender uma conclusão anterior. Por isso, uma manchete favorável pode bastar, enquanto dez pesquisas contrárias continuam insuficientes.
O caso do CERN não demonstra que a ciência seja inconfiável. Demonstra que uma medição pode falhar até em um dos laboratórios mais avançados do mundo. O erro foi descoberto porque o resultado foi questionado, repetido e testado.
O caso da vacina expõe outro problema. A The Lancet publicou um estudo cheio de problemas e levou anos para retratá-lo. O dano causado não pode ser ignorado. Mas um estudo não derruba o conjunto das evidências. Ele só ganhou esse poder porque sua conclusão continuou circulando depois que sua base havia desmoronado.
O diário de Fauci não contém apenas dúvidas. Contém confissões sobre sua relação com a imprensa, o interesse despertado pela própria fama e discussões internas que não chegaram ao público da mesma maneira. Isso compromete sua credibilidade e exige apuração. O que não permite é transformar a conduta de Fauci em prova de que toda conclusão científica sobre a pandemia era falsa.
Esconder essas confissões para proteger a imagem da ciência também seria uma forma de manipulação. A pós-verdade não pertence apenas a quem deseja desacreditar Fauci. Também alcança quem rejeita fatos inconvenientes porque precisa preservá-lo.
O problema não é termos deixado de acreditar nos fatos. É termos aprendido a utilizar fatos para proteger aquilo em que já decidimos acreditar.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
Entre Prateleiras, por Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
ACESSAR
Entre Prateleiras,por Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
Entre Prateleiras
Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.