A síndrome do pequeno poder
Existem ambientes que oferecem algo cujo acesso costuma ser muito mais restrito em organizações submetidas à lógica de mercado: posições de autoridade
Jaques Paes
Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV
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Entre cargos que reconhecem uma trajetória e cargos que passam a produzir uma trajetória existe uma organização que os concede. Existem ambientes que oferecem algo cujo acesso costuma ser muito mais restrito em organizações submetidas à lógica de mercado: posições de autoridade. Essas organizações operam sob uma economia diferente de legitimação.
Associações, organizações sem fins lucrativos, fundações, institutos, entidades de classe e outras organizações sustentadas por trabalho voluntário ou terceirizado dependem de um mecanismo de engajamento profissional no qual a autoridade não é necessariamente precedida por uma trajetória profissional equivalente, o que permite preencher funções que permaneceriam vagas caso seus ocupantes precisassem percorrer trajetórias semelhantes às normalmente observadas em outros ambientes organizacionais.
O mercado faz uma seleção relativamente dura. Para alguém tornar-se diretor de uma grande empresa, gerente de uma operação crítica, comandante militar ou pesquisador de uma universidade, normalmente existe uma trajetória que antecede a autoridade. Competências são desenvolvidas, responsabilidades assumidas, erros cometidos, resultados passam a ser observados e a autoridade vai sendo instituída ao longo do tempo.
Esse fenômeno organizacional não decorre do cargo, mas da lógica que torna possível ocupá-lo. Quanto maior a diferença entre a autoridade conquistada na carreira e a autoridade recebida dentro daquela organização, maior tende a ser o valor psicológico daquele cargo.
Isso cria um espaço de preservação simbólica no qual a proteção da função passa a incorporar aquilo que ela representa para quem a ocupa: uma identidade que dificilmente existiria em outro ambiente.
Pessoas tornam-se extremamente defensivas diante de críticas administrativas. Pequenas alterações estatutárias produzem disputas que atravessam anos. Eleições em entidades voluntárias rompem amizades construídas ao longo de décadas. Determinadas sucessões parecem ameaçar muito mais do que uma simples troca de dirigentes.
Quando a trajetória deixa de ser o principal mecanismo de legitimação da autoridade, o cargo assume outra função. Além da responsabilidade institucional, passa a produzir identidade.
A autoridade objetiva é pequena e contrasta com o significado psicológico que o cargo adquiriu. Questionar um procedimento deixa de significar apenas discutir uma decisão e passa a representar uma ameaça ao principal ativo simbólico que aquela organização distribuiu. O questionamento atinge a identidade construída em torno da autoridade recebida.
Essa assimetria entre trajetórias e significados altera percepções. Comportamentos frequentemente explicados pelo temperamento de quem ocupa essas posições podem ter parte de sua origem na arquitetura institucional que transforma determinadas funções em espaços de preservação simbólica.
A síndrome do pequeno poder diz menos sobre o poder exercido do que sobre a forma como determinadas organizações distribuem autoridade, status e reconhecimento.
Quanto menos transferível for o reconhecimento produzido por um cargo, maior poderá ser o esforço para preservá-lo.
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Jaques Paes, executivo da indústria de mineração, palestrante professor conteudista na Fundação Getúlio Vargas, palestrante e autor do livro “Sustentabilidade além dos Rankings: fatores, limites e distorções na medição da sustentabilidade na mineração
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Esta coluna parte da ideia de que gestão, sustentabilidade, projetos e estratégia não vivem em gavetas separadas. “Entre Prateleiras” é o espaço onde essas fricções aparecem e onde decisões, narrativas e contradições se encontram. Seu propósito é trazer à superfície o que costuma ficar guardado para provocar conversas que façam diferença no mundo que a gente vê lá fora.