Novas habilidades viram diferencial no mercado de trabalho
Empresas passam a procurar profissionais capazes de combinar conhecimento técnico, visão estratégica e habilidades
Não é mais o domínio de uma linguagem de programação que, sozinho, abre as portas do mercado. Com a inteligência artificial avançando sobre diferentes setores da economia, as empresas passam a procurar profissionais capazes de combinar conhecimento técnico, visão estratégica e habilidades humanas.
Comunicação, criatividade, organização e trabalho em equipe ganham peso, enquanto dados, nuvem e inteligência artificial deixam de ser diferenciais para se tornar parte da base profissional.
Segundo Lucas Niemeyer, diretor de Comunidade e Cultura do Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança), uma análise de quase 20 mil vagas do Índice de Vagas da instituição mostra que a comunicação lidera entre as competências comportamentais mais exigidas, presente em 23% dos anúncios. Além disso, 54% dos próprios profissionais apontam a habilidade como fundamental.
Os dados fazem parte do Estudo em Carreiras de Tecnologia 2026, realizado pelo Inteli em parceria com a WKS.
Na sequência, aparecem criatividade, organização e trabalho em equipe. Entre as competências técnicas, ganham importância a fluência em nuvem, o letramento em dados e as metodologias ágeis.
Para Niemeyer, porém, o principal ponto de virada está na visão de negócio. “A barra de corte não está mais no código, está no desenvolvimento humano e na visão estratégica.”
De acordo com ele, profissionais precisam ser capazes de traduzir tecnologia em retorno sobre investimento, experiência do usuário e estratégia. Nesse cenário, a inteligência artificial já deixou de ser apenas um diferencial.
Na pesquisa Sonda Tech, por exemplo, 79% dos profissionais apontaram IA como a área mais relevante do mercado, maior índice entre as categorias analisadas.
Para ele, assim como ocorreu com a tecnologia e vem acontecendo com a nuvem, a IA se torna transversal e passa a fazer parte de diferentes áreas.
O diferencial, portanto, está em saber usar a ferramenta com entendimento crítico: compreender o que ela fez, por que funciona e quando não funciona.
“O maior beneficiado não é um 'setor de IA', é quem está na interseção entre tecnologia e um problema real de negócio. A demanda cresce com força justamente nos setores tradicionais em ciclo intenso de digitalização: finanças, saúde, varejo, indústria, logística, agronegócio, educação e até o setor público, onde há recursos expressivos e enorme carência de gente qualificada.”
Desafio de encontrar profissionais
Se a inteligência artificial começa a se tornar um diferencial no mercado, encontrar profissionais que realmente saibam transformar a tecnologia em resultado ainda é um desafio para as empresas.
Frederico Comério, Head de Inteligência Artificial na Intelliway, cita que esse desafio é mais acentuado quando a procura é por profissionais que combinem uma boa formação técnica com experiência prática em IA e conhecimento de negócio.
Gisélia Freitas, especialista em pessoas e carreiras, conta que já existe procura no Espírito Santo, especialmente por profissionais de tecnologia, dados, automação e funções relacionadas diretamente à implantação de inteligência artificial.
Eliakim Stutz, diretor de Marketing da UpCities, reforça que o domínio de IA já começa a ser considerado um diferencial nas contratações, mas não é o único critério.
“A gente não procura simplesmente alguém que saiba usar uma ferramenta de IA, mas profissionais que consigam entender como essa tecnologia pode ser aplicada para resolver problemas, ganhar produtividade e melhorar os resultados do negócio.”
Na prática, como complementa, o diferencial está em quem consegue combinar o conhecimento da própria área com a capacidade de utilizar a IA de forma estratégica.
“Um profissional de marketing, por exemplo, que conhece profundamente o comportamento do consumidor e também sabe usar inteligência artificial para analisar informações, gerar insights e acelerar processos, passa a ter uma vantagem competitiva muito maior.”
Ele acredita que essa combinação entre experiência e domínio da tecnologia tende a ser cada vez mais valorizada.
“A IA não substitui o conhecimento acumulado pelo profissional, mas potencializa a capacidade de quem sabe fazer as perguntas certas, avaliar as respostas e transformar aquilo em resultado. Por isso, mais do que contratar alguém que simplesmente 'saiba IA', as empresas vão buscar profissionais capazes de trabalhar com IA.”
Prêmio salarial pela escassezO mercado já começa a reconhecer e remunerar o domínio da inteligência artificial em determinadas funções. As posições ligadas à IA já carregam um prêmio salarial.
Essa realidade é impulsionada, sobretudo, pela escassez de profissionais qualificados e pela crescente demanda das empresas por esse tipo de conhecimento, como destaca Lucas Niemeyer, diretor de Comunidade e Cultura do Inteli.
Gisélia Freitas, especialista em pessoas e carreira, diz que há pesquisas internacionais mostrando um prêmio salarial bastante expressivo para profissionais com competências em IA.
Mas esse movimento, como salienta o Head de Inteligência Artificial na Intelliway, Frederico Comério, não significa que aprender a usar ferramentas como o ChatGPT, por si só, seja garantia de um prêmio salarial.
Segundo ele, o diferencial está na capacidade de aplicar a tecnologia de forma estratégica, combinando conhecimento técnico, experiência profissional e compreensão dos problemas que precisam ser resolvidos.
Posições ligadas à (IA) e machine learning (aprendizado de máquina) estão oferecendo uma remuneração de 2% a 6% maior, em média, do que em outros setores de tecnologia conhecidos pela alta demanda de talentos, como cibersegurança e engenharia de computação em nuvem.
No mundo, os países que pagam os maiores salários são os Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Canadá, nessa ordem. Nos EUA, o cheque completo – que inclui salário, benefícios, incentivos de curto e longo prazo – para um especialista técnico de machine learning, considerada uma função de nível intermediário, ultrapassa US$ 170 mil ao ano (cerca de R$ 883 mil)
No Brasil, o mesmo profissional, com cesta de vantagens similar, pode ganhar US$ 70 mil anuais (cerca de R$ 364 mil por ano).
Os dados são de uma pesquisa realizada pela Willis Towers Watson (WTW), multinacional de soluções baseadas em análises de dados nas áreas de pessoas, risco e capital.
Maiores de 40 em vantagem
Na corrida pela inteligência artificial, os profissionais 40+ podem ter uma vantagem que nenhum curso ensina de um dia para o outro: repertório. São anos acumulados de reuniões, crises, negociações, decisões e problemas resolvidos no mundo real. E, na era da IA, essa bagagem ganhar novo valor.
É justamente essa experiência prática que, segundo Eduardo Glazar, CSO da Globalsys, pode fazer diferença na hora de avaliar as respostas produzidas pela tecnologia. O profissional experiente consegue reconhecer quando a inteligência artificial inventa uma informação com aparência de verdade.
“Quem nunca viu o problema no mundo real não tem repertório para desconfiar da resposta.”
A especialista em pessoas e carreiras Gisélia Freitas ressalta que é preciso fazer boas perguntas, dar contexto, identificar erros e avaliar se a resposta realmente faz sentido para aquela situação. Por outro lado, como pondera, experiência sem atualização não garante vantagem.
“O profissional 40+ que incorporar a IA ao seu trabalho pode unir maturidade e conhecimento acumulado à velocidade e produtividade proporcionadas pela tecnologia. Essa combinação entre experiência, senso crítico e domínio da IA pode aumentar sua empregabilidade e seu valor para as empresas.”
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