Empresas vão aumentar salário de empregado que souber usar IA
Domínio da tecnologia tende a virar diferencial nas carreiras, como foi com computação em nuvem e Inglês
O currículo do futuro já começou a ser escrito — e, nele, saber conversar com uma inteligência artificial (IA) pode valer tanto quanto uma graduação, uma experiência ou uma especialização.
À medida que a IA assume tarefas, acelera processos e muda a forma de produzir, uma nova disputa começa a ganhar espaço nos bastidores das empresas: a corrida pelos profissionais capazes de transformar a tecnologia em resultado.
Nesse novo mercado, especialistas apontam que quem souber usar a IA para pensar melhor, produzir mais e resolver problemas poderá ganhar vantagem nas negociações e até ter espaço para conquistar salários maiores.
A dimensão dessa mudança começa a ser medida também pela economia.
Na 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET) realizada em julho no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio, o vencedor do Nobel de Economia de 2010, Christopher Pissarides, dedicou sua palestra ao impacto da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho.
A mensagem central é que a IA não deve representar uma devastação generalizada dos empregos, mas uma profunda reorganização do trabalho, na qual a capacidade de adaptação e o desenvolvimento de novas competências ganham importância.
Para Lucas Niemeyer, diretor de Comunidade e Cultura do Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança), o impacto da inteligência artificial sobre salários e oportunidades de emprego já pode ser medido e não ocorre de maneira uniforme entre os trabalhadores.
“O impacto já é mensurável, e ele não se distribui de forma igual. No nosso Estudo de Carreiras, o professor Maurício Garcia organiza o mercado em três grupos: os 'displaced', cujas funções são reduzidas pela automação, os 'augmented', que usam IA como ferramenta mantendo o julgamento humano, e os 'builders', que desenvolvem e governam esses sistemas”.
Eduardo Glazar, CSO da Globalsys, destaca que o domínio da inteligência artificial vai virar um novo diferencial salarial.
“O caminho já está desenhado. Quem usa a ferramenta corretamente produz mais hoje, e produtividade sustentada acelera crescimento de carreira dentro da empresa”.
O que muda com o tempo, no seu entendimento, é o lugar onde esse diferencial aparece.
“Hoje ele aparece na promoção. Daqui a alguns anos, quando a medição estiver madura, ele aparece na faixa salarial da vaga, como aconteceu com inglês nos anos 90 e com cloud na década passada”.
APOSTAS DOS NOBEL
Christopher Pissarides
Vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2010, Christopher Pissarides avalia que a IA não deve provocar uma eliminação generalizada dos empregos, mas transformar profundamente o mercado de trabalho. Algumas tarefas poderão ser automatizadas, enquanto outras serão modificadas pela incorporação da tecnologia.
Para o economista, um dos principais efeitos da IA é a transformação das funções e dos fluxos de trabalho, com profissionais assumindo novas atividades e precisando desenvolver novas habilidades. Ao mesmo tempo, a tecnologia amplia a demanda por profissionais, inclusive em setores tradicionais, e modifica o papel desempenhado pelos trabalhadores.
Diante disso, ele defende o desenvolvimento contínuo de novas competências e ressalta a importância de “aprender a aprender” ao longo da carreira.
Simon Johnson
Para o vencedor do Nobel de Economia de 2024, Simon Johnson, a questão central da inteligência artificial é seu impacto sobre os bons empregos, principalmente para pessoas que não fizeram faculdade.
Em seus trabalhos com Daron Acemoglu e David Autor, Johnson analisa como os algoritmos podem substituir pessoas e quantas novas tarefas de alta produtividade e bem remuneradas estão sendo criadas.
Ele vê potencial em uma “IA pró-trabalhador”, capaz de aumentar a produtividade e os salários de trabalhadores com menor escolaridade. Para isso, porém, é preciso direcionar a tecnologia nessa direção.
A experiência histórica mostra que os ganhos tecnológicos podem se concentrar em poucas mãos.
Por isso, é preciso criar mais tarefas para os seres humanos, elevando sua produtividade, a demanda por seu trabalho e, consequentemente, seus salários.
APOSTAS DE ESPECIALISTAS
David Autor
Para o economista David Autor, professor do Departamento de Economia do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, a inteligência artificial pode provocar uma mudança importante na estrutura do mercado de trabalho ao ampliar o acesso a conhecimentos e capacidades que antes dependiam de níveis mais elevados de experiência e treinamento.
Nesse sentido, a IA não precisa ser apenas uma ferramenta para substituir trabalhadores. Ela também pode ampliar a capacidade de profissionais, permitindo que assumam tarefas de maior complexidade e valor que antes estavam restritas a níveis mais elevados de especialização.
O efeito sobre os salários, porém, não é automático. Depende de como as tarefas serão transformadas pela tecnologia. Quando a IA complementa a expertise dos trabalhadores, pode elevar sua produtividade e, em determinadas circunstâncias, aumentar o valor do trabalho que realizam.
Frederico Comério
A disputa das empresas por profissionais que sabem usar inteligência artificial já é uma realidade e deve se intensificar nos próximos anos, segundo Frederico Comério, Head de Inteligência Artificial da Intelliway.
Essa disputa, porém, não será simplesmente por quem “sabe usar ferramentas de IA”, mas por quem consegue combinar a tecnologia com conhecimento profundo de uma profissão.
“Um advogado, engenheiro, contador, profissional de marketing ou gestor experiente que aprenda a utilizar a IA para produzir mais e melhor pode se tornar muito mais valioso do que alguém que conhece apenas a ferramenta. Esse cenário pode favorecer profissionais mais experientes, porque o conhecimento acumulado ajuda a fornecer contexto, fazer as perguntas certas e perceber quando os modelos e agentes de IA erram.”
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