Uma xícara que viaja o mundo
Entre recordes de exportação e retomada do consumo, o conilon capixaba percorre um longo caminho até a xícara do dia a dia.
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
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Na última quinta-feira (1º), o mundo levantou a xícara. A data nasceu em 2015, na Expo Milão, por iniciativa da Organização Internacional do Café, que resolveu reunir num só dia as homenagens que cada país fazia separadamente.
O Japão comemorava desde 1983; os americanos tinham setembro; e o Brasil segue com seu próprio 24 de maio, criado pela Abic. Brindamos, como quem confere a despensa antes de reabastecer. E a despensa anda movimentada.
Em agosto, o Brasil embarcou 4,16 milhões de sacas, o melhor agosto da série histórica do Cecafé, que vem desde 1990, com US$ 1,33 bilhão em receita. O conilon e o robusta, que no Espírito Santo a gente chama pelo primeiro nome, foram 953 mil sacas, alta de 53,6% sobre um ano antes.
O presidente do Cecafé, Márcio Ferreira, credita parte do resultado à qualidade que os canéforas brasileiros vêm mostrando lá fora. Nós assinamos embaixo, com a ressalva de quem conhece o cafezal: essa qualidade levou anos para chegar.
Do outro lado do balcão, o consumidor voltou. Em 2025, com o café caro na prateleira, as vendas caíram 5,4% nos oito primeiros meses. Em 2026, a Abic mediu alta de 2,29% no mesmo intervalo, algo como 13,69 milhões de sacas, com aceleração de 4,65% só entre maio e agosto.
O brasileiro toma, em média, 1.400 xícaras por ano e segue como segundo maior consumidor do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos. O preço mais camarada no supermercado devolveu algumas xícaras ao hábito de quem tinha cortado.
O solúvel merece parágrafo à parte, porque carrega uma história pouco contada. Foram 65,3 mil toneladas exportadas até agosto, 12,8% acima de 2025, com a Europa comprando 44,2% mais depois do acordo entre Mercosul e União Europeia.
Aqui dentro, o consumo cresceu 11,9% no mesmo período. Tem muito conilon capixaba naquele pote que o café coado sempre tratou com um pé atrás, e que a gente, convenhamos, também guarda no armário para os dias de pressa.
O campo já pensa na próxima xícara, a que ainda nem nasceu. As chuvas de setembro favoreceram a abertura das floradas, e pesquisadores do Cepea apontam bom pegamento no conilon nas principais regiões produtoras.
Em Linhares e em Brejetuba, o acumulado de chuva já supera o do ciclo anterior. Ainda é cedo pra falar de safra fechada, e o El Niño segue no radar do setor. Mas cafezal branco de flor, tomando o horizonte capixaba, é um jeito bonito de começar outubro.
Quem deixou passar a data sem uma xícara à altura tem o fim de semana inteiro pra compensar.
Vale lembrar que aquele café de sábado carrega uma viagem e tanto para caber em 50 mililitros. Sai de um galho florido no norte capixaba, passa por uma balança de porto que bateu recorde, atravessa meio mundo em contêiner e chega quente à mesa de uma padaria de esquina.
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Coluna assinada por Marcus e Matheus Magalhães