Lafer tinha razão
Ataques de 2001 mudaram a ordem mundial e deram início a décadas de guerras dos Estados Unidos contra o terrorismo
José Vicente de Sá Pimentel
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Dia 11 de setembro de 2001, seis horas da manhã em Los Angeles. Atendo o telefone e um funcionário do Consulado me alerta sobre as notícias de uma tragédia em Nova York. Ligo a televisão a tempo de ver o segundo avião colidir com o World Trade Center. A explosão obrigou o âncora a descartar, transtornado, a hipótese de um acidente: as duas torres estavam em chamas, não podia ser coincidência. Logo se saberia dos ataques ao Pentágono e à Pensilvânia.
Dez dias depois, o então chanceler Celso Lafer previu na OEA que os atentados mudariam o eixo da ordem mundial, deslocando o foco das discussões sobre economia e direitos humanos para uma agenda de segurança internacional. Profético. Ali começava o século XXI, e não começava bem.
O presidente George W. Bush prometeu ao Congresso que a guerra ao terror não acabaria até que todos os grupos terroristas fossem encontrados, subjugados e exterminados. O discurso recebeu demorados aplausos dos representantes de um povo embasbacado com a descoberta de sua própria vulnerabilidade.
Os capítulos seguintes da história são bem conhecidos. Definida em termos tão amplos, a meta de Bush e de seus sucessores se comprovaria inalcançável. Os EUA passariam os 25 anos seguintes em guerras que não venceram e que, na avaliação de muitos peritos, não poderão vencer, a despeito de seu poderio bélico.
Sem dúvida, as forças americanas tiveram vitórias nos vários campos de batalha em que lutaram ao longo deste quarto de século. Em coalizão com aliados da OTAN, quatro presidentes infligiram pesadas baixas aos adversários. Contudo, os diferentes ecossistemas terroristas não foram exterminados. Adaptaram-se, migraram, descentralizaram-se e sobreviveram.
A guerra no Afeganistão teve início poucas semanas depois do 11 de setembro, justificada pela recusa do governo afegão, controlado pelo grupo extremista Talibã, a entregar Osama bin Laden, líder da al-Qaeda e mentor do 11 de setembro. Dois anos depois, Colin Powell discursaria durante 76 minutos no Conselho de Segurança da ONU para justificar a invasão militar do Iraque, iniciada no mês seguinte.
No Afeganistão, a forever war custou 2 trilhões de dólares e só terminou em agosto de 2021, com a retirada das tropas aliadas e a entrega do país de volta ao Talibã e à al Qaeda. No Iraque, os americanos estão até hoje. Segundo consta, a retirada está programada para as próximas semanas. Ao partirem, as tropas deixarão para trás um país com vários grupos extremistas da última geração, tipo franquias ou plataformas digitais, sem sede própria.
Resta ainda o ISIS, filhote da Al Qaeda que chegou a dominar um terço da Síria e do Iraque. Oficialmente derrotado em 2017, o Estado Islâmico circula na região não mais como um califado e sim como uma guerrilha descentralizada.
Neste segundo mandato de Trump, a lista de organizações terroristas passou a incluir o tráfico de drogas e o crime organizado. O planejamento do combate e a probabilidade de vitória continuam, portanto, prejudicados pela insistência equivocada em inimigos abstratos -- embora, a bem da verdade, seja preciso reconhecer que Trump erra também ao escolher alvos concretos. Subestimou o Irã e isso pode lhe custar caro. Sim, estou falando de impeachment em 2027.
Na condição de cônsul em Los Angeles, assisti à rápida transformação da cidade e do país. As agências de segurança nacional foram reorganizadas, a legislação e os métodos de atuação endureceram. Os aeroportos, por exemplo, se tornaram insuportáveis. O mais difícil na época era explicar às autoridades visitantes que teriam de tirar os sapatos e se deixar revistar em nome da segurança. O tempo passou, a tecnologia evoluiu, hoje aceitamos as precauções e esquecemos a conveniência de cuidar das causas do extremismo.
Sucessivos governos americanos gastaram a rodo para organizar operações militares mundo afora. Sobrou dinheiro e faltou estratégia político-militar. É inútil querer ganhar na força bruta quando se perde a guerra das ideias. No caso, ideias a princípio defendidas pelos próprios EUA que, após a Segunda Grande Guerra, comandaram a criação do sistema das Nações Unidas, alicerçado em nobres conceitos de democracia, livre concorrência, justiça social e respeito às diferenças.
Naquela manhã de 11 de setembro, assisti ao vivo à explosão do World Trade Center. Vinte e cinco anos depois, continuo vendo os EUA tentarem apagar com bombas os incêndios que eles mesmos ajudam a alimentar.
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