Cabeça fria e bola pra frente
Crítica aponta falhas na condução diplomática entre Brasil e Estados Unidos e cobra firmeza sem romper o diálogo
José Vicente de Sá Pimentel
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Descubra os dois erros no seguinte texto de matéria publicada ontem num jornal de grande circulação: “Perez motivou uma crise pela demora do governo brasileiro em comunicar a aceitação do seu nome como embaixador americano no Brasil”. Descobriu?
Pois é. O primeiro erro é falar em demora brasileira. O segundo é dizer que o Brasil teria de comunicar a aceitação. O artigo 4º da Convenção de Viena sobre relações diplomáticas diz que antes de divulgar o nome da pessoa que se deseja acreditar como embaixador, deve-se esperar uma confirmação de que a indicação foi aceita. O Estado que recebe a indicação não tem prazo para dar a resposta, nem sequer precisa dar as razões de uma eventual recusa do agrément.
A retirada do visto da embaixadora em Washington não tem antecedentes na história diplomática. A rigor – e vamos falar baixo, para não dar ideias a ninguém –, a embaixadora ficou indocumentada, o que é um risco. Nestes tempos em que, por mais difícil de acreditar, o ICE continua sendo considerado pela maioria dos eleitores como uma promessa eleitoral de Trump que “deu certo”, todo cuidado é pouco. O artigo 29 da Convenção torna inviolável a pessoa do agente diplomático, e o artigo 22 torna invioláveis os locais da embaixada, onde nem a polícia pode entrar sem consentimento do chefe da missão. Mas a impressão que se tem é de que os artigos de uma Convenção nada valem para o atual governo americano. Não é apenas desrespeito: o governo Trump parece ter horror à diplomacia e a tudo mais que imponha limites a seus caprichos.
Entendo o argumento de que o imbróglio poderia ter sido evitado se o agrément fosse concedido com brevidade. De fato, a tradição de amizade entre os dois países justificaria essa gentileza. Pondero, contudo, que não houve de nossa parte ofensa aos americanos; pelo contrário, a atitude do nosso governo foi compreensível, depois de receber tantas afrontas. Lembram?
Em julho do ano passado, o secretário de Estado Marco Rubio revogou os vistos de entrada nos EUA do ministro Alexandre de Moraes e pessoas próximas. Dias depois, com apoio explícito de Eduardo Bolsonaro e amigos, foi oficializada a tarifa de 50% sobre as importações do Brasil. É verdade que, em novembro, a pressão interna sobre a popularidade de Trump em decorrência da inflação de alimentos fez com que fossem removidas as tarifas sobre carne, café, cacau e frutas do Brasil; o restante permaneceu, porque a motivação não era econômica, e sim política. Por isso mesmo, novas tarifas foram aplicadas aos produtos brasileiros em 22 e 24 de julho último.
De resto, não somos os únicos “amigos” a sofrer desfeitas. Canadá, México, Dinamarca, Ucrânia e União Europeia, em geral, têm recebido reiteradas afrontas.
Alegações de natureza econômica e de segurança nem de longe justificam as grosserias cometidas pela Casa Branca contra os chefes de governo desses históricos aliados. No nosso caso, temos um complicador: Trump escalou Marco Rubio como governador-geral das capitanias latino-americanas.
Corre que Rubio tem um retratinho de Joe McCarthy em sua mesinha de cabeceira. McCarthy foi aquele senador por Wisconsin, irrelevante, porém ambicioso e sem escrúpulos, que aproveitou a paranoia coletiva nos EUA pós-Segunda Guerra para acusar jornalistas, artistas, intelectuais, empresários e outros políticos de serem comunistas a serviço da União Soviética e da China.
Charlie Chaplin, Arthur Miller e Orson Welles, apenas alguns dos que sofreram perseguições, são hoje respeitados e reverenciados pela obra que deixaram. Já o macarthismo, que tanto estrago causou, foi rebaixado pelo Houaiss à mera “prática de formular acusações e fazer insinuações sem prova”.
Embora seja difícil pôr um fim definitivo à falta de caráter, não é razoável tentar ressuscitar, nem como farsa, a histeria americana dos anos 50. Por isso, torço para que as próximas eleições recoloquem o bom senso nos trilhos. Se o macarthismo virou verbete de dicionário, as tarifas e os vistos revogados de 2025 podem vir a ser recordados como turbulências passageiras, de forma alguma suficientes para prejudicar o relacionamento a longo prazo.
Cabeça fria, sim. O que não significa aguentar desaforo. Diplomacia requer firmeza sem romper a ponte. Vamos acompanhar de perto como Daniel “Danny” Perez desempenhará o seu novo papel de embaixador. A Convenção de Viena, com seus 53 artigos, seguirá servindo de baliza e de esperança de dias melhores.
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