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OPINIÃO INTERNACIONAL

Encontro no calçadão

Polarização política, desinformação e extremismo ameaçam aprofundar divisões em sociedades já marcadas pelo conflito

José Vicente de Sá Pimentel | | Atualizado em
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel


          Imagem ilustrativa da imagem Encontro no calçadão
José Vicente de Sá Pimentel. |  Foto: Divulgação

Encontrei no calçadão um amigo de décadas e foi aquela festa: quanto tempo, o que anda fazendo? Tudo bem, escrevo um pouco, cuido da saúde; aliás, acabo de tomar a vacina contra a covid-19. Doeu? Quase nada; menos, certamente, do que a infecção com o vírus. E quem garante que você não vai pegar? Ora, os cientistas que desenvolveram a vacina e as entidades médicas que a testaram e aprovaram; você não vai tomar? Vou não; sou como o presidente, não acredito em vacina.

O encontro foi no tempo da pandemia e o presidente dava receitas de outros medicamentos que não a vacina. Ponderei que quem não era médico não devia dar opiniões numa situação de insegurança sanitária como aquela. Ele retrucou com o kit obscurantista: o Estado não deve interferir no corpo do cidadão (embora receitar cloroquina fosse uma interferência muitíssimo mais perigosa); vacinas causam autismo ou sequelas neurológicas (há estudos comprovando que isso é falso); a indústria farmacêutica fabrica crises para lucrar com imunizantes (não é o que comprova o histórico da saúde pública).

O bate-boca era, até certo ponto, divertido. Aos meus olhos, ele encarnava o protótipo do radical de direita; aos olhos dele, eu seria o quê?

Você é lulista? Pergunta. Respondo que não, sou um social-democrata saudoso de FHC, mas entre Lula e Bolsonaro eu prefiro o primeiro. Como se ofendido, ele esbraveja: como é que você pode defender um homem que foi preso! Preso!

Há vários outros casos de líderes injustamente presos, como Mandela, que ficou 27 anos em Robben Island – digo isso satisfeito, pensando que o argumento seria definitivo. Ledo engano. Transtornado, ele rebate na minha cara: Mandela era um canalha!

Aí, quem se irritou fui eu. Mandela é um dos meus ídolos. Vociferei: quem disse um absurdo desses? Confessou: vi num vídeo de Coppolla. Levantei a voz: esse rapaz está mal-informado, repete a opinião de algum racista sul-africano remanescente do apartheid. Foi então que meu amigo se entregou: não vejo nenhum problema com o apartheid.

Encerrei o papo, não dava para continuar. Na hora achei que o problema era meu amigo. Depois, entendi que era o país.

Voltei a me lembrar desse episódio ao assistir ontem, num canal de streaming, ao filme “Guerra Civil”. Trata-se de uma denúncia desapaixonada, e nem por isso menos aterradora, dos desencontros políticos que levariam os EUA a uma secessão. O enredo segue quatro jornalistas, um dos quais o nosso Wagner Moura, que vão de Nova York para Washington numa viagem perigosa, pois o país está em guerra. O presidente, no terceiro e inconstitucional mandato, discursa na cena de abertura: “Estamos mais perto do que nunca da vitória. Alguns já estão até dizendo que é a maior vitória da história da humanidade”. O ator nem precisa imitar os trejeitos de Trump, a hipérbole é suficiente para denunciar o personagem.

Um dos motivos que tornam o filme chocante é que, fora a improvável aliança entre a Califórnia e o Texas, a história não precisa de muita explicação para fazer sentido. A sociedade americana está partida ao meio. O fácil acesso a armas de fogo e o ódio fratricida entre grupos paramilitares viraram cenas do dia a dia. A batalha final em Washington é só um pouco mais intensa do que a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.

“Guerra Civil” foi filmado em 2022 e me fez lembrar do Brasil daquela época. As grosserias diárias no cercadinho em frente ao Planalto; as sete arrobas do quilombola que nem para procriar servia; a imitação do infeliz que morre asfixiado de covid, e nada a fazer, porque o presidente não era coveiro; as ameaças de golpe, enquanto apoiadores, fascinados, aplaudiam: “mito, mito”.

Aquele era um país dividido, um país estimulado a dividir-se. Hoje melhorou, embora, para meu gosto, devesse ter melhorado mais.

De qualquer forma, a situação não é tão grave quanto a dos EUA. Lá, a ideia de um divórcio nacional está com frequência presente nas arengas de influenciadores da ultradireita e vez por outra no discurso de algum político. Parece que só as dificuldades logísticas impedem que o divórcio se concretize. O resultado é um casamento amargo, sem amor, em que os parceiros seguem juntos porque a separação sairia cara demais. Não queremos importar esse modelo.

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