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OPINIÃO INTERNACIONAL

Química ou cilada?

Trump é imprevisível e desdenha dos freios diplomáticos, haja vista o que tem aprontado com Mark Carney

José Vicente de Sá Pimentel | | Atualizado em
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel


          Imagem ilustrativa da imagem Química ou cilada?
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump |  Foto: Isac Nóbrega/PR

Chama a atenção o número de conversas entre Lula e Trump. Pelas minhas contas, foram três encontros presenciais e quatro telefonemas neste segundo mandato trumpista.

O contato em setembro do ano passado, na Assembleia Geral da ONU, teria sido rápido demais para ter relevância, não fosse o comentário de Trump sobre a “excelente química” entre os dois. No mês seguinte, em Kuala Lumpur, houve a primeira reunião bilateral, que resultou na retirada de parte das tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.

Ainda em outubro, deu-se o 1º telefonema, que durou 30 minutos. Em dezembro, outro telefonema, de 40 minutos, em que Lula agradeceu a retirada de tarifas sobre alguns produtos, como carne e café, e defendeu ações conjuntas contra o crime organizado.

Em janeiro do corrente ano, mais um telefonema, um pouco mais longo, para falar do Conselho da Paz para Gaza, da Venezuela e, de novo, do combate ao crime organizado. Em maio, Lula foi recebido na Casa Branca para uma reunião de trabalho de 3 horas no Salão Oval. No dia 21 último, novo telefonema de Lula, que se estendeu por quase hora e meia.

Sejam presenciais, sejam telefônicas, essas conversas são sempre formais e requerem preparação cuidadosa. Na tradição diplomática brasileira, o ponto de partida é uma sondagem da nossa embaixada sobre a receptividade do mandatário local. Todo embaixador tem o dever profissional de cultivar boas relações com seu homólogo da chancelaria local, ao qual transmitirá o interesse brasileiro. Havendo receptividade, a embaixada formalizará o pedido por meio de nota.

Nessa altura, nosso Chanceler reúne em seu gabinete o grupo de diplomatas encarregados de preparar as matérias que desejamos discutir, descendo a minúcias como as perguntas e os comentários pertinentes, caso a reação do outro lado for assim ou assado.

Depois de aprovado na Presidência, esse roteiro é distribuído para todos os assessores, inclusive para o tradutor, uma vez que este não apenas traduzirá as falas do PR e do seu homólogo, como também ficará atento ao tradutor do outro lado. É o tal negócio, “tradutore, traditore”.

Durante a chamada, os assessores ficam na sala do Presidente, disponíveis para qualquer esclarecimento. Finda a conversa, todos imergem na interpretação do diálogo. O do dia 21 há de ter sido particularmente rico. A escalação de Jamieson Greer para imediatas negociações sobre o “tarifaço” com certeza foi bem recebida. Por sua vez, o convite de Trump para que Lula o chame, diretamente, quando quiser, há de ter merecido muita reflexão. Foi simpático, mas canja de galinha e prudência não fazem mal a ninguém. Trump é imprevisível e desdenha dos freios diplomáticos, haja vista o que está aprontando com Mark Carney.

Depois de dizer que o Canadá é o 51º estado americano e “vive graças aos EUA”, Trump impôs tarifas de 50% sobre uma ampla gama de produtos canadenses, de peças automobilísticas a produtos lácteos, passando — pura implicância — por tacos de hockey. Isso a despeito do confortável superávit comercial mantido pelos EUA, se excluído o petróleo pesado que o Canadá exporta, com valor abatido, para as refinarias do Meio-Oeste americano.

Na semana passada, mais uma rodada de negociações bilaterais terminou mal. Considerando que a posição de Trump era desrespeitosa, o primeiro-ministro canadense anunciou que retaliará com tarifas lineares sobre centenas de importações dos EUA, sobretudo as provenientes de estados governados por republicanos.

Dito isso, retirou-se da mesa de negociações. Foi duro e se deu bem. Uma pesquisa de opinião do último fim de semana revelou que 67% dos canadenses aprovaram a sua atitude.

O clima ruim entre os dois ex-amigos vem estimulando especulações sobre a hipótese de adesão do Canadá à União Europeia. Operacionalmente improvável, a ideia ganha credibilidade diante da irritação nacional com as provocações de Trump — a última, uma ordem executiva determinando que, nos registros oficiais do governo dos EUA, o Lago Ontário passe a se chamar “Lago América”.

Carney apostou no confronto e ganhou apoio doméstico, embora tenha de pagar o prejuízo da ruptura comercial. Lula aposta na diplomacia institucional, tira 2 mil produtos da tarifa americana e quer livrar do tarifaço mais US$ 7 bilhões de itens que pesam no bolso do eleitor americano. A affordability, ou capacidade de compra, vira moeda diplomática.

Setembro será o teste crucial. Se os Estados Unidos mantiverem neutralidade na disputa presidencial brasileira, a química pode até ser genuína. A ver.

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