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OPINIÃO ECONÔMICA

A conta que não fecha e a ilusão do malabarismo diário

Enquanto o discurso oficial fala em estabilidade, famílias se endividam para comprar comida, contas atrasam e o mês termina antes do salário

Floriano Schneider | | Atualizado em
Opinião Econômica


          Imagem ilustrativa da imagem A conta que não fecha e a ilusão do malabarismo diário
Floriano Schneider é especialista em estratégias de vendas e negócios |  Foto: Divulgação

Há um abismo evidente entre os discursos oficiais de estabilidade e a realidade nua e crua enfrentada pelo cidadão ao passar pelo caixa do supermercado. Viver no Brasil virou um exercício diário de contorcionismo financeiro.

Enquanto a retórica em Brasília insiste em ignorar os limites da responsabilidade fiscal, gastando além da conta e empurrando a dívida pública para patamares perigosos, a fatura dessa farra não é paga pelos gabinetes, mas pelo trabalhador comum na forma de juros escorchantes e perda contínua do poder de compra.

Os números mostram a gravidade da situação. Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) apontam que mais de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, com cerca de 30% já com contas em atraso. Não se trata de endividamento para compra de bens duráveis ou investimentos futuros; trata-se de pessoas usando o limite do cartão de crédito ou o cheque especial para comprar arroz, feijão, remédio e pagar a conta de luz. O dinheiro ficou caro, o crédito virou armadilha e a renda real evaporou.

No Espírito Santo, costumamos nos orgulhar, com razão, de manter as contas públicas estaduais relativamente organizadas, com nota máxima em gestão fiscal. Mas a blindagem institucional capixaba não é uma redoma mágica contra a maré inflacionária nacional. Vitória frequentemente figura entre as capitais com as cestas básicas mais caras do País nos levantamentos do Dieese, e o trabalhador da Grande Vitória ou do interior sente no estômago o mesmo aperto do resto do País: o salário acaba muito antes do mês terminar.

Essa ginástica silenciosa para manter a dignidade tem limites biológicos e econômicos. Quando o cidadão corta o supérfluo, troca a proteína pela mais barata e passa a escolher qual boleto vai atrasar no mês, o comércio sente na veia a queda nas vendas e a economia inteira desacelera.

O pessimismo aqui não é torcida contra; é lucidez e alerta. Fingir que o problema não existe é a receita mais rápida para o desastre. O momento exige cautela redobrada das famílias no controle de cada centavo e responsabilidade das lideranças empresariais na gestão de seus negócios. Quanto ao poder público federal, fica o recado amargo: populismo fiscal com dinheiro que não existe não gera justiça social; gera inflação, dívida e pobreza real no prato do brasileiro.

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